No domingo (23), o ONS acionou pela segunda vez em 2026 um mecanismo emergencial para cortar cerca de 1 gigawatt de geração entre 11h e 13h30, direto nas distribuidoras, diante do excesso de energia solar e eólica no sistema elétrico brasileiro.
O episódio expõe o outro lado do avanço da geração distribuída: o Brasil já tem 4,6 milhões de consumidores que geram a própria energia solar em casas, comércios e propriedades rurais, cerca de 5% do total, pressionando o equilíbrio entre oferta e consumo.
Cortes de energia acontecem pela segunda vez no ano
O episódio de domingo repete o que já havia ocorrido em junho, quando o ONS acionou o mesmo mecanismo emergencial pela primeira vez, também em um fim de semana de alta geração solar e eólica combinada a baixo consumo comercial e industrial.
A energia solar e a eólica são fontes intermitentes: dependem de condições naturais que nem sempre coincidem com os horários de maior consumo. Como a eletricidade não pode ser armazenada em larga escala, o ONS precisa reduzir a geração para preservar a segurança do sistema — e a conta recai sobre as chamadas usinas tipo III, que normalmente não são despachadas diretamente pelo operador.
Segundo Roberto Brandão, do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel) da UFRJ, mesmo com hidrelétricas e termelétricas reduzidas ao mínimo, ainda sobra energia. “Corta eólica, corta solar, centralizada”, resume o especialista, explicando que as distribuidoras organizam o corte junto aos geradores.
Subsídios turbinaram a geração distribuída — e pesam na conta de luz
A expansão acelerada tem relação direta com o benefício tarifário criado para quem instala painéis solares: quem gera a própria energia não paga pela distribuição como os demais consumidores. O Marco Legal da Geração Distribuída, sancionado em 2022, garante esse desconto até 2045 para quem aderiu até janeiro de 2023.
Para Clauber Leite, do Instituto E+ Transição Energética, os subsídios foram decisivos para viabilizar a mudança da matriz elétrica brasileira, mas hoje pesam no bolso de quem não tem painel solar. A Aneel estimou a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) em R$ 52,7 bilhões para 2026 — cerca de R$ 47,8 bilhões pagos via tarifa.
Prejuízo de R$ 6,5 bilhões e alerta desde 2025
O problema não é novo: em 2025, a Aneel já havia iniciado a elaboração de protocolos emergenciais depois de o ONS identificar que o excesso de renováveis poderia ameaçar a estabilidade da rede. Meses depois, a consultoria Volt Robotics estimou que os cortes de geração solar e eólica geraram R$ 6,5 bilhões em prejuízos só em 2025.
Para Joisa Dutra, do Centro de Estudos em Regulação e Infraestrutura (Cebi) da FGV, o excesso de oferta compromete o retorno de investimentos no setor e já provoca dificuldades para honrar compromissos financeiros assumidos por investidores em usinas solares e eólicas.
A fiscalização também tenta reagir: em abril, a Aneel abriu consulta pública para coibir ampliações irregulares de potência, casos em que consumidores aumentam a geração sem avisar as distribuidoras.
O ONS afirma que estuda ampliar sistemas de armazenamento de energia, reforçar a transmissão e incorporar novas cargas eletrointensivas, como data centers. Já a ABEEólica defende tarifas com sinais econômicos horários, supervisão para consumidores com geração própria e restrição de novos acessos em áreas com capacidade esgotada.