O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) acionou neste sábado, pela primeira vez, o Plano Emergencial de Gestão de Excedentes de Energia na Rede de Distribuição para o domingo (7).
A medida foi tomada de forma preventiva: condições climáticas favoráveis à geração solar e eólica, aliadas à expectativa de baixo consumo no fim de semana, criaram risco de desequilíbrio no sistema elétrico nacional.
Distribuidoras de todo o país foram convocadas a reduzir a geração sob sua área de concessão — incluindo pequenas hidrelétricas e sistemas de minigeração e microgeração distribuída.
O plano foi aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e instituído no ano passado, após episódios que expuseram a vulnerabilidade do sistema frente à expansão acelerada das renováveis.
A geração eólica e solar, por sua natureza intermitente, provoca sobreoferta em determinados períodos. Quando o consumo está baixo — como ocorre tipicamente aos domingos — e o clima colabora, o excedente pode comprometer o controle de frequência e tensão em toda a rede.
Como o plano funciona
O ONS primeiro esgotou os recursos sob seu controle direto, acionando cortes na geração centralizada. Só então recorreu às distribuidoras, que operam fontes fora da rede básica — e sobre as quais o operador não tem controle direto.
“Para amanhã, o Operador solicitou a redução dos recursos da geração centralizada, que estão sob sua responsabilidade. Esgotada essa providência, foi necessário colocar em prática o Plano Emergencial”, afirmou o ONS em nota.
A medida impacta diretamente a minigeração e microgeração distribuída — modalidade que permite a consumidores gerarem a própria energia e receberem desconto na conta de luz ao injetar o excedente na rede. Embora fora da rede básica, essas fontes afetam o equilíbrio do sistema interligado.
O cenário de excedente não surgiu de forma inesperada: em maio, o ONS já havia revisado para 101% da média histórica as projeções de afluência hídrica no Sul do país — sinal de que a capacidade crescente de geração pressionava o sistema em períodos de baixo consumo.
Histórico: duas crises deram origem ao plano
A criação do mecanismo emergencial tem origem em dois episódios críticos de 2025. Em 4 de maio e 10 de agosto, o alto percentual de micro e minigeração distribuída no Sistema Interligado Nacional (SIN) levou o sistema à beira da perda de controle de frequência e tensão.
Os eventos mostraram que o crescimento da geração distribuída — fenômeno impulsionado pela popularização dos painéis solares — criou um novo tipo de risco para a segurança do sistema elétrico brasileiro.
A partir daí, a Aneel aprovou o Plano Emergencial, que deu ao ONS uma ferramenta inédita: a capacidade de acionar as distribuidoras para cortar geração em situações de excedente extremo, mesmo sem controle direto sobre essas fontes.
O episódio deste domingo ilustra um dilema crescente da transição energética no Brasil: à medida que a capacidade instalada de solar e eólica avança, o sistema precisa lidar com janelas de geração excessiva tão desafiadoras quanto as faltas de energia. A tendência deve se intensificar com a expansão contínua das renováveis e a adesão crescente de consumidores à geração própria.
