O climatologista Paulo Artaxo, membro do IPCC, alertou em entrevista ao podcast Vozes do Planeta que o El Niño 2026 ainda está se intensificando e pode elevar o risco para o agronegócio brasileiro e a infraestrutura das cidades.
Segundo a NOAA, há 90% de probabilidade de o fenômeno ser muito forte, com efeitos sentidos desde agosto até fevereiro de 2027 e definição da intensidade só entre o fim de setembro e o início de outubro.
O oceano já registra aquecimento recorde de 1,2 ºC, e o país segue despreparado para lidar com secas na Amazônia, chuvas extremas no Sul e ondas de calor cada vez mais letais.
Agronegócio e hidrelétricas sob risco
Artaxo explica que a economia brasileira depende de um regime de chuvas estável, mas o padrão vem mudando: chove menos no Brasil central e mais no Rio Grande do Sul, o que compromete diretamente a produtividade agrícola. A geração de hidroeletricidade também é ameaçada pela redução das chuvas na Amazônia e no centro do país, essencial para o abastecimento dos reservatórios.
“Um país tão dependente da chuva, como é o Brasil hoje, pode não ter o sucesso que teve nas últimas décadas. Precisamos adaptar não só as cidades, mas todo o sistema econômico”, afirma o climatologista da USP.
Enquanto o cientista detalha os riscos, o governo federal já reagiu: em reunião de emergência, Lula convocou 24 ministros para preparar a resposta ao El Niño, ainda que o próprio presidente reconheça a incerteza sobre a intensidade do fenômeno.
Cidades sem infraestrutura
São Paulo é citada como exemplo do descompasso entre clima e planejamento urbano: o número de dias com chuva acima de 100 mm quadruplicou desde a década de 1930, mas a rede de drenagem não acompanhou o ritmo, ampliando o risco de enchentes que atingem sobretudo a população de baixa renda.
Ondas de calor: a face mais mortal do clima
Segundo estudos da UFRJ citados por Artaxo, as ondas de calor mataram 70 mil pessoas no Brasil na última década — só nas últimas semanas, Alemanha e França somaram cerca de três mil mortes pelo mesmo motivo. O cientista defende campanhas de esclarecimento para evitar exercícios físicos em horários de calor extremo e reforçar a hidratação de idosos e crianças.
Mas ele pondera que a recomendação tem limites práticos: quem mora em casas com telhado de zinco, onde a temperatura interna pode chegar a 47 ºC, enfrenta uma realidade distinta de quem tem acesso a ar-condicionado. “A precariedade de distribuição de renda e moradias no Brasil fazem com que nosso país seja muito injusto para com a população de baixa renda”, diz Artaxo.
O alerta reforça um diagnóstico já conhecido: o Brasil chega a mais um El Niño sem política permanente de adaptação estruturada, com estados como Santa Catarina tendo executado apenas 0,66% dos recursos previstos para obras de contenção em 2025.
Artaxo também criticou a cobertura sensacionalista de parte da imprensa sobre eventos extremos e defendeu que a comunicação aponte diretamente a responsabilidade da indústria de combustíveis fósseis pelo agravamento das mudanças climáticas.