Um estudo liderado por Katherine Power, da Universidade de Estocolmo, identificou a causa da crise climática que, há mais de 3 mil anos, ajudou a derrubar civilizações no Mediterrâneo — cenário real por trás de Odisseia, novo filme de Christopher Nolan.
Segundo a pesquisa, publicada no mês passado, uma tendência lenta de ressecamento se somou a um ciclo natural mais rápido de seca do Atlântico, intensificando a crise ligada à migração dos “Povos do Mar” e ao fim de reinos na Idade do Bronze.
Um quebra-cabeça de mais de 3 mil anos
Há décadas, arqueólogos debatem por que sociedades inteiras entraram em colapso ao final da Idade do Bronze, período marcado pela migração em massa dos chamados “Povos do Mar” e por conflitos generalizados no Mediterrâneo. Para reconstruir o clima daquela época, Power e a paleoclimatologista Qiong Zhang, também da Universidade de Estocolmo, cruzaram esporos de plantas, núcleos de gelo e rochas de cavernas com um modelo computacional que dividiu o planeta em células de cerca de 125 quilômetros quadrados, calculadas mês a mês ao longo de milênios.
“Não estamos limitados a apenas um núcleo ou uma caverna”, disse Power. “Podemos enxergar mais longe e construir um panorama completo.” O resultado não apontou um evento único e catastrófico, mas o alinhamento entre uma tendência lenta de aquecimento e ciclos mais curtos de seca — o tipo de colapso hídrico gradual que, segundo a pesquisadora, pode ter reduzido colheitas, forçado migrações e alimentado conflitos, processo semelhante ao que agrava a seca recorde que atinge a Europa atualmente.
O arqueólogo Eric H. Cline, da Universidade George Washington, reforça que a seca foi parte de uma “tempestade perfeita de calamidades” que incluiu também doenças. Para ele, os paralelos com o presente “não são nada exagerados”.
Os mesmos ciclos, agora em um planeta mais quente
Power afirma que os ciclos naturais de umidade e seca vindos do Atlântico continuam ativos hoje, mas agora atuam sobre um planeta aquecido pela queima de petróleo, gás e carvão. “Acho que isso é ainda mais alarmante e representa uma ameaça ainda maior”, diz a pesquisadora. Rios europeus registram níveis recordes de baixa, incêndios florestais se espalham e a França enfrenta a pior safra de milho em 50 anos — sinais que, segundo relatório da ONU, já configuram uma “catástrofe global em câmera lenta”.
Para os cientistas, o alerta é que crises assim não dependem de um único choque, mas de pressões acumuladas ao longo de anos, padrão que se encaixa no que especialistas já descrevem como o novo normal climático do planeta. Cline pondera que, nos momentos mais otimistas, acredita que a humanidade ainda pode “cair em si e evitar essa possibilidade em algum momento”.