Um relatório da ONU classifica a seca como uma “catástrofe global em câmera lenta” e destaca impactos graves desde 2023. O documento aponta perdas na produção de alimentos, falta de água, apagões e colapso de ecossistemas em várias regiões do mundo. O Brasil aparece com destaque devido aos impactos extremos na Amazônia.
Impactos devastadores em diferentes continentes
O relatório, elaborado pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), analisou centenas de fontes governamentais, científicas e da mídia para mapear os efeitos da seca em escala global. O fenômeno foi chamado de “assassino silencioso” pela OMM, que alertou para o aumento da frequência e severidade das ondas de calor devido às mudanças climáticas causadas por atividades humanas.
Na África Oriental e Meridional, mais de 90 milhões de pessoas enfrentam fome aguda, com algumas áreas vivenciando a pior seca já registrada. Na África Austral, cerca de um sexto da população, equivalente a 68 milhões de pessoas, necessitava de ajuda alimentar em agosto de 2024. Thiaw, uma das fontes do relatório, afirmou: “A seca não é mais uma ameaça distante. Ela já está entre nós, se intensificando, e exige cooperação global urgente. Quando energia, comida e água falham ao mesmo tempo, as sociedades começam a desmoronar. Esse é o novo normal para o qual precisamos estar preparados.”
Na Somália, autoridades locais estimam que 43 mil pessoas morreram apenas em 2022 devido à fome relacionada à seca. No início de 2025, 4,4 milhões de pessoas, um quarto da população do país, enfrentavam insegurança alimentar crítica.
No Mediterrâneo, a Espanha registrou queda de 50% na safra de azeitonas em setembro de 2023, o que dobrou os preços do azeite de oliva. No Marrocos, o rebanho de ovelhas era 38% menor em 2025 em comparação a 2016. Já na Turquia, o uso intensificado de aquíferos subterrâneos acelerou o esgotamento dos reservatórios e provocou o surgimento de mais de 1.600 dolinas, grandes crateras que ameaçam comunidades e estruturas urbanas.
As dificuldades de Espanha, Marrocos e Turquia para garantir água, alimentos e energia diante da seca persistente ilustram um possível cenário futuro com o aquecimento global fora de controle. O relatório ressalta que nenhum país pode ser complacente, independentemente de sua riqueza ou capacidade.
Destaque para o cenário brasileiro
Na Bacia Amazônica, que abrange grande parte do território brasileiro, o relatório cita níveis recordes de baixa dos rios em 2023 e 2024, resultando em morte em massa de peixes e mais de 200 golfinhos ameaçados de extinção.
A seca interrompeu o fornecimento de água potável e transporte para centenas de milhares de pessoas, afetando especialmente comunidades ribeirinhas dependentes dos rios. O Rio Amazonas atingiu seu nível mais baixo já registrado em algumas áreas, deixando moradores isolados e cidades inteiras sem acesso à água potável.
Na América Latina, além da Amazônia brasileira, o relatório destaca a seca extrema que atingiu o Canal do Panamá entre 2023 e 2024. Os níveis de água caíram tanto que o número de navios autorizados a cruzar a rota foi reduzido em um terço, impactando o comércio global. Exportações de grãos e alimentos sofreram atrasos, e redes de supermercados no Reino Unido relataram falta de produtos como frutas e vegetais.