A China formalizou, no 15º Plano Quinquenal (2026-2030), a meta de reduzir a importação de alimentos e ampliar a produção agrícola doméstica, como resposta às incertezas do comércio internacional e aos riscos climáticos que já afetam colheitas de milho e arroz no país.
Com 18% da população mundial e apenas 7% das terras aráveis do planeta, Pequim aposta em sementes resistentes, mecanização e inteligência artificial para elevar a produtividade — mas segue dependente de itens como soja e carne bovina.
Metas do 15º Plano Quinquenal
O plano chinês para o período 2026-2030 prevê elevar a proporção de terras agrícolas de alta qualidade de 70% para 75%, além de investir em variedades de sementes mais resistentes, mecanização avançada, agricultura de precisão e uso mais eficiente da água. “A China certamente estabeleceu metas ambiciosas para o seu setor agrícola”, avalia Christina Otte, especialista da agência alemã Germany Trade & Invest (GTAI) na China, que lembra que a estratégia de reduzir importações não é nova.
Mesmo com o avanço tecnológico, o país deve seguir dependente de itens como soja, carne bovina, laticínios e óleos vegetais — recursos de terra e água limitados impedem a substituição total das importações. Em meados de agosto, a China comprou pouco mais de meio milhão de toneladas de soja dos Estados Unidos para o próximo ano comercial, volume pequeno diante do compromisso fechado com Washington em outubro passado, de 25 milhões de toneladas anuais até 2028 — acordo que integra um pacote de US$ 17 bilhões anuais em produtos agrícolas dos EUA fechado em maio.
Guerra na Ucrânia e clima acendem alerta
Pesquisadores do think tank americano CSIS apontam que a guerra entre Rússia e Ucrânia “exacerbou os riscos à segurança alimentar nacional representados pelo atual mercado global de grãos” e forçou uma reavaliação do comércio de cereais baseado no livre comércio. Um estudo publicado na revista Nature mostra ainda que eventos combinados de calor e seca aumentaram na China, afetando sobretudo as colheitas de milho e arroz.
Impacto para exportadores, especialmente na Ásia
A diversificação de fornecedores chineses, aliada a investimentos em portos e ferrovias, deve pressionar países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean) mais dependentes do mercado chinês, como Camboja, Laos, Mianmar, Tailândia e Vietnã, segundo análise do Instituto Iseas-Yusof Ishak. “Para os países que anteriormente exportavam grandes quantidades de alimentos e produtos agrícolas para a China, isso significa inicialmente um aumento da pressão competitiva”, diz Otte. “Ao mesmo tempo, porém, surgem novas parcerias e mudanças nas oportunidades de mercado.”
O Brasil já sente esse movimento de perto: há dez dias, o Tropiquim mostrou que Pequim impôs cotas com sobretaxa de 55% à carne bovina brasileira e cortou compras de milho após colher safra recorde em 2025. Na soja, porém, o cenário é oposto: as importações da oleaginosa brasileira bateram recorde em junho, enquanto as compras da soja americana recuavam 20,6%, retrato da estratégia de diversificação que o plano quinquenal agora formaliza.