China quer produzir mais internamente e depender menos do exterior, conforme seu 15º Plano Quinquenal (2026-2030), que fixa metas de segurança alimentar, incluindo elevar a autossuficiência em carne bovina e ovina de 70% para 85%.
O Brasil já sente o impacto: a China impôs cotas com sobretaxa de 55% às importações de carne bovina neste ano e reduziu as compras de milho após colher uma safra recorde em 2025.
Apesar disso, especialistas consultados descartam ruptura comercial — mas apontam que o Brasil precisa diversificar mercados e agregar valor às exportações para manter espaço no maior comprador de soja do país.
Por que a China quer depender menos do exterior
Ainda que tenha um território maior que o do Brasil, a China dispõe de pouca terra apta à agricultura — grande parte do país é montanhosa, árida ou desértica — e concentra menos de 5% da água doce do planeta. Por isso, a estratégia de Pequim aposta em ganhos de produtividade, com investimento em melhoramento genético de sementes, inclusive transgênicas, e maquinário mais avançado.
Segundo o consultor Theo Paul Santana, fundador da consultoria Destino China, o país já atingiu a meta de autossuficiência em grãos como arroz e trigo, cuja produção supera em mais de 100% a demanda interna. O foco do plano recai sobre alimentos que o Brasil pouco exporta à China. “O que o Brasil vende é justamente aquilo em que a China não consegue ser autossuficiente: soja e carne”, afirma.
No ano passado, a China importou volume recorde de quase 112 milhões de toneladas de soja — mais de 70% vindas do Brasil —, já que a produção interna cobre apenas cerca de 20% da demanda. Larissa Wachholz, ex-assessora do Ministério da Agricultura e sócia da Vallya Associados, diz que essa dependência é motivo de desconforto para Pequim.
O efeito já apareceu no milho: com uma safra recorde em 2025, a China reduziu as importações do cereal de 8,4 milhões de toneladas em 2024 para menos de 4 milhões, derrubando em 20,8% o valor das exportações brasileiras do grão, segundo o Ministério da Agricultura.
No mercado de carne bovina, a cota anual de 1,1 milhão de toneladas com sobretaxa de 55% já foi ultrapassada em julho, segundo levantamento do consultor Fernando Enrique Iglesias, da Safras & Mercado.
Como o Brasil pode se adaptar
Para Santana, a política de cotas chinesa tem limite estrutural: o país produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina por ano, mas consome entre 11 e 12 milhões — um déficit que a OCDE projeta chegar a 4 milhões de toneladas anuais até 2032. Ainda assim, a Abiec já havia projetado queda de 10% nas exportações brasileiras de carne bovina em 2026, o que reforça a necessidade de diversificar destinos.
Somente em 2025, o Brasil abriu mais de 200 novos mercados, quase 20 deles para carne bovina. Mas substituir parte da China — que compra metade de tudo o que o Brasil exporta do produto — não deve ser tarefa simples.
Agregar valor é outra frente citada pelos especialistas. Em maio, importadores de Tianjin se comprometeram a pagar até 10% a mais pela carne bovina brasileira certificada e livre de desmatamento, um caminho que consultores apontam como tendência para o setor.
Larissa Wachholz destaca ainda que o setor privado brasileiro precisa ampliar presença na China para acompanhar mudanças regulatórias e aproveitar oportunidades emergentes, como a produção de combustíveis sustentáveis para aviação (SAF) e transporte marítimo. Um sinal de que a relação segue estratégica para Pequim: a estatal COFCO ampliou terminal no Porto de Santos, comprou locomotivas e vagões, e discute memorando para estudar a ferrovia bioceânica ligando o Centro-Oeste ao Pacífico.