O Ministério Público Federal (MPF) apura se o Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul (Imasul) autorizou desmatamento no Maciço do Urucum, em Corumbá (MS), sem o aval prévio do Ibama, em área que abriga ninhos ativos de harpias, ave quase ameaçada de extinção.
O inquérito civil apura licenças concedidas entre 2023 e 2025 às mineradoras LHG, Vetria e 3A Mining. O Imasul tem 15 dias para justificar por que dispensou a autorização federal exigida por lei.
Autorização sem aval do Ibama
De acordo com a portaria que abriu o inquérito civil, o Imasul concedeu autorizações de supressão de vegetação a empresas de mineração de ferro sem seguir a Lei 11.428/2006, que exige aprovação prévia do Ibama para áreas de Mata Atlântica acima de 50 hectares em zona rural. Somente depois dessa etapa federal o órgão estadual poderia dar anuência ao corte.
Além do Imasul, respondem ao procedimento as empresas LHG Mining Corumbá S/A, Vetria Mineração S.A. e 3A Mining S.A., beneficiadas pelas licenças questionadas. O órgão estadual terá 15 dias para enviar os processos administrativos que embasaram as decisões, apresentar as justificativas técnicas para dispensar o crivo do Ibama e informar se houve estudos sobre a presença de ninhos de harpia nas áreas liberadas. Procurado pelo g1, o Imasul não respondeu até a publicação da reportagem.
Ninhos ativos e nota técnica do INPA
A abertura do inquérito se apoia em uma nota técnica do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), que confirmou a existência de ninhos ativos de harpia na região. Segundo o MPF, os territórios de caça das aves coincidem com as áreas de expansão minerária já autorizadas — um cruzamento que reforça o risco às populações remanescentes da espécie no Pantanal. A movimentação soma-se a outra atuação recente do órgão no bioma: dias antes, o MPF já havia classificado como inconstitucional uma tentativa de anular a ampliação da Estação Ecológica de Taiamã, sinal de reforço na fiscalização ambiental do Pantanal.
Uma espécie rara monitorada há uma década
No Maciço do Urucum, um casal de Harpia harpyja é acompanhado por pesquisadores há cerca de dez anos. Um dos ninhos usados pela dupla foi localizado apenas em julho de 2025, após anos de buscas. Em novembro do mesmo ano, um filhote foi registrado pela primeira vez em outro ninho, confirmação inédita da reprodução da espécie no Pantanal.
Segundo o biólogo Gabriel Oliveira, que participa do monitoramento, a harpia — também chamada de gavião-real — tem comportamento recluso e pode atingir 2,20 metros de envergadura, o que torna os registros raros. A ave costuma construir ninhos em árvores com mais de 40 metros, mas o exemplar de Corumbá optou por uma árvore mais baixa, em local de difícil acesso.
A espécie põe dois ovos por postura, mas geralmente só um filhote sobrevive, após incubação de 56 dias e até dois anos de dependência dos pais — o que resulta em intervalo reprodutivo de cerca de três anos. Por depender de territórios de 20 a 35 km² de floresta contínua por casal, a harpia é considerada espécie-bandeira para a conservação de florestas tropicais e ajuda a controlar populações de mamíferos arbóreos.