Um relatório divulgado pela Oxfam Brasil nesta quarta-feira (19) mostra que o 1% mais rico do país passou a concentrar 24,3% de toda a renda nacional em 2023, contra 20,4% em 2017.
De cada R$ 100 recebidos pelos brasileiros, cerca de R$ 24 ficaram com esse grupo restrito — e o avanço ocorreu mesmo com pobreza e desigualdade geral em queda no período.
Patrimônio ainda mais concentrado
Quando a análise considera bens como imóveis, investimentos e aplicações financeiras, a concentração é maior: o 1% mais rico detém 37,3% de toda a riqueza declarada no Brasil. O país terminou 2025 na 4ª posição entre 56 mercados analisados em desigualdade patrimonial, com cerca de 386 mil milionários em dólar — um contingente que cresceu 9.215 pessoas em 2025, segundo levantamento do UBS, ainda que a maior parte da população adulta permaneça com patrimônio modesto.
A Oxfam também classifica a estrutura tributária brasileira como regressiva, por recair mais sobre consumo e salários do que sobre patrimônio e renda dos mais ricos. Segundo o relatório, a alíquota efetiva do Imposto de Renda cai para 4,6% entre o 0,01% mais rico, efeito da isenção sobre lucros e dividendos e da baixa tributação sobre heranças — o que faz com que famílias de renda mais baixa comprometam proporcionalmente mais do orçamento com impostos.
Diferenças de gênero, raça e poder político
A composição da renda também varia por gênero: entre as mulheres, 56,5% dos rendimentos vêm de salários e outras fontes tributáveis, enquanto os homens concentram parcela maior de rendimentos isentos, como lucros, dividendos e aplicações financeiras — o que mantém a renda do capital mais concentrada entre eles. Os dados dialogam com o gap salarial de 21,3% entre homens e mulheres registrado em abril, recorde desde 2024.
O recorte racial aprofunda a distância: homens não negros recebem em média R$ 6.560 por mês no mercado formal, contra R$ 3.026 de mulheres negras — valor que cai para R$ 2.079 quando considerado também o mercado informal. Na política, as mulheres são 52,65% do eleitorado, mas ocuparam apenas 17% das cadeiras em 2022, enquanto quase 45% dos eleitos declararam patrimônio superior a R$ 1 milhão. O diagnóstico segue a linha de relatórios globais da Oxfam, que já apontava o peso da fortuna dos super-ricos na perpetuação da pobreza.