As mulheres no setor privado brasileiro ganham, em média, 21,3% menos do que os homens — e a diferença nunca foi tão alta desde que o governo começou a medi-la, em 2024. Os dados são do 5º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado nesta segunda-feira (27) pelo Ministério do Trabalho e Emprego.
O levantamento analisou cerca de 53 mil empresas com 100 ou mais funcionários e cruzou dados da RAIS entre 2023 e 2025. Na prática, enquanto o emprego feminino cresceu 11% no período, a remuneração média das mulheres ficou em R$ 3.965,94 — contra R$ 5.039,68 dos homens.
Uma trajetória de piora constante
No primeiro relatório, publicado em março de 2024, a diferença salarial entre homens e mulheres era de 19,4%. Em setembro daquele ano, subiu para 20,7%. Em abril de 2025, chegou a 20,9%; em novembro, a 21,2%. Agora, alcança 21,3% — confirmando uma tendência de alta que contradiz os avanços na participação feminina no mercado.
Desde 2023, o número de mulheres empregadas com carteira assinada saltou de 7,2 milhões para 8 milhões — aumento de 800 mil vagas. O crescimento foi ainda mais expressivo entre mulheres negras: o contingente passou de 3,2 milhões para 4,2 milhões, alta de 29%.
Apesar disso, a massa de rendimentos das mulheres representa apenas 35,2% do total pago pelo setor privado, abaixo de sua participação no emprego (41,4%). Para equilibrar essas proporções, seria necessário um acréscimo de R$ 95,5 bilhões na renda feminina.
Raça aprofunda o abismo salarial
O recorte racial expõe a camada mais severa da desigualdade. Mulheres negras têm remuneração média de R$ 3.026,66, com salário contratual mediano de R$ 1.908,79 — o piso da pirâmide salarial. No outro extremo, homens não negros recebem em média R$ 6.560,02, com mediana de R$ 2.921,21.
Mulheres não negras recebem, em média, R$ 5.018,11 — mais próximo dos homens em geral, mas ainda inferior. Já os homens negros têm remuneração média de R$ 3.875,52.
Os dados da RAIS que embasam o relatório são os mesmos que revelaram, recentemente, a queda de 21% nos vínculos formais no trabalho doméstico — setor ocupado majoritariamente por mulheres negras e que ainda convive com informalidade estrutural.
A desigualdade também se aprofunda conforme o porte das empresas e o nível de qualificação exigido. Em companhias maiores e em cargos de nível superior, a distância entre os salários de homens e mulheres tende a crescer. Indústria e agropecuária concentram as maiores disparidades; comércio e serviços apresentam gaps menores, porém igualmente negativos para as mulheres.
O mapa regional e o custo econômico da desigualdade
A desigualdade também varia por estado. Os menores gaps foram registrados no Acre (mulheres ganham 91,9% do salário masculino), Piauí (92,1%) e Distrito Federal (91,2%). No outro extremo, Espírito Santo (70,7%), Rio de Janeiro (71,2%) e Paraná (71,3%) têm as maiores distâncias.
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que o Brasil poderia ampliar sua economia em R$ 382 bilhões com políticas efetivas de igualdade de gênero — valor que poderia dobrar com a plena equidade. O Banco Mundial projeta crescimento superior a 20% no PIB global caso mulheres tenham as mesmas oportunidades que homens no mercado de trabalho.
Em resposta ao cenário, os ministérios das Mulheres e do Trabalho lançaram, em abril de 2025, o Movimento pela Igualdade no Trabalho, com adesão de empresas e entidades de setores como o bancário e o industrial. Um Plano Nacional de Igualdade Salarial, com vigência até 2027, também foi publicado no Diário Oficial.
A Lei da Igualdade Salarial, sancionada pelo presidente Lula em julho de 2023, obriga empresas com mais de 100 empregados a adotar transparência remuneratória, canais de denúncia e programas de diversidade. Os relatórios semestral do MTE são um dos mecanismos de fiscalização criados pela legislação — e é justamente essa série histórica que agora evidencia: a lei ainda não dobrou a curva da desigualdade.
