Gilbson Júnior, condenado por matar João Bosco Sobrinho em um centro comercial de São Luís, em agosto de 2022, disse à Polícia Federal que se reunia com o governador do Maranhão, Carlos Brandão (MDB), e o sobrinho dele, Daniel Brandão, no Palácio dos Leões, sede do Executivo estadual.
O depoimento, prestado em junho de 2025, foi revelado por uma decisão sigilosa do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que também apontou pagamentos mensais em espécie para que o condenado ficasse em silêncio sobre o crime.
Reuniões que começaram com negociação de terras
Segundo o depoimento, Gilbson Júnior se aproximou de Carlos Brandão ainda em 2021, quando ele era vice-governador, para tratar da venda de terras no Maranhão. O negócio não se concretizou, mas abriu caminho para encontros frequentes no Palácio dos Leões — ele diz ter registrado entrada no local ao menos três vezes e recebido uma vaga fixa de estacionamento.
Foi nesse período que Daniel Brandão, sobrinho do governador, passou a tratá-lo diretamente, segundo o relato. Daniel viria a ser nomeado conselheiro do Tribunal de Contas do Maranhão (TCE-MA) em 2023 e foi afastado do cargo por 180 dias nesta segunda-feira (17), por decisão do ministro Flávio Dino.
A cobrança de propina e o assassinato
Gilbson Júnior relatou que uma dívida de propina não paga motivou uma reunião no Tech Office, centro comercial de São Luís, com Daniel Brandão, João Bosco Sobrinho — a vítima — e um terceiro identificado como Beto. Segundo ele, Daniel teria cobrado o pagamento antes de deixar o local, e João Bosco passou a ameaçá-lo, dizendo que colocaria a pistola na boca do filho do condenado.
Depois do crime, Gilbson Júnior afirmou ter recebido a orientação de não se apresentar à polícia para não sujar a campanha de Brandão, e que o caso só chegou ao STF depois de indícios de que o senador Weverton Rocha (PDT-MA) teria atuado para blindar os Brandão enquanto a investigação tramitava no STJ.
Pagamentos mensais e reação das defesas
De acordo com Gilbson Júnior, sua família recebeu valores mensais em espécie para garantir seu silêncio — que teriam chegado a R$ 40 mil e caído para R$ 15 mil por mês em pagamentos mensais em espécie. Os repasses, segundo ele, eram intermediados pelo ex-secretário de Segurança Pública Raimundo Cutrim, por um homem identificado como Júnior Cabeção e pelo advogado Flávio Costa, nomeado desembargador do Tribunal de Justiça do Maranhão em 2026 pelo próprio Carlos Brandão.
Ele também disse ter recebido, dentro do presídio, uma ligação do empresário Marcus Brandão, irmão do governador, pedindo que não citasse o nome da família.
Questionado, Carlos Brandão reenviou nota em que classifica as citações a seu nome como inconsistentes; a defesa também protocolou pedido no STF para suspender o inquérito de Dino, alegando usurpação da competência do STJ. Daniel Brandão afirmou ‘absoluta inocência’ e disse estar à disposição das autoridades. O Tribunal de Justiça do Maranhão não se pronunciou sobre a menção ao desembargador Flávio Costa.