Especialistas ouvidos pelo Tropiquim explicam por que o calor na Europa, mesmo com temperaturas menores que as registradas no Brasil, pode ser mais perigoso à saúde da população.
A onda de calor histórica de junho de 2026 já deixou mais de 10 mil mortos no continente, segundo os pesquisadores consultados.
Mais horas de sol e casas que retêm calor
O fenômeno começa na geografia. No solstício de verão, data de maior incidência solar do ano, a Europa recebe mais horas de luz do que o Brasil. Em Belo Horizonte, por exemplo, o sol nasce por volta das cinco da manhã e se põe perto das seis e meia da tarde em dezembro. Em Berlim, no solstício de junho, o sol nasce antes das quatro da manhã e só se põe perto das oito e meia da noite — horas a mais de radiação solar que se mantêm por semanas.
A isso soma-se um problema estrutural: construídas para reter calor durante os longos invernos europeus, as casas do continente têm dificuldade para dissipá-lo quando chega uma onda de calor. As paredes não têm tempo de esfriar entre um dia e outro, e o ar-condicionado ainda é exceção em muitos países.
Calor seco x calor úmido
Outro fator é a umidade do ar. O calor europeu costuma ser mais seco, enquanto o brasileiro é mais úmido — e esse desequilíbrio na troca de calor do corpo pode levar à desidratação e, em casos extremos, à falência de órgãos, segundo os especialistas.
“Se essas ondas de calor continuam cada vez mais frequentes e mais intensas, você não vai conseguir mais viver ali. Vai ter regiões que possivelmente vão deixar de ser habitáveis, porque o nosso organismo não vai dar conta de viver ali naquela situação”, afirma o pesquisador Gouveia.
Continente que mais aquece, segundo cientistas
Para a meteorologista Ana Ávila, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura da Unicamp, a Europa é o continente que mais aquece no planeta atualmente. “As ondas de calor vêm acontecendo de uma forma que não é uma variabilidade, e sim uma mudança. O clima está em processo de mudança para essas condições mais frequentes”, afirma.
Segundo ela, medidas de adaptação são fundamentais para proteger a saúde da população, especialmente os idosos, grupo mais sensível aos efeitos do calor extremo.
A mesma onda de calor de junho que matou mais de 10 mil pessoas na Europa também provocou uma seca recorde em países como França e Romênia — causada não pela falta de chuva, mas pela atmosfera mais quente, que suga a umidade do solo, como o Tropiquim mostrou na semana passada.
