Daniel Perez, deputado estadual da Flórida indicado por Trump para a embaixada dos EUA no Brasil, virou o centro de uma crise diplomática depois que Washington revogou o visto da embaixadora brasileira, Maria Luiza Ribeiro Viotti, na terça-feira (04/08).
A medida foi resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément — autorização diplomática necessária — a Perez, indicado em junho e que ainda aguarda o aval de Brasília. Na sexta-feira (07/08), o Senado americano aprovou a indicação por 51 votos a 47, superando a última etapa interna do processo nos Estados Unidos.
Quem é Daniel Perez
Aos 38 anos, Perez preside desde 2024 a Câmara dos Representantes da Flórida, equivalente a uma Assembleia Legislativa estadual. Republicano e aliado de Trump, chegou a ser cotado no ano passado para o cargo de procurador-geral do estado.
Filho de imigrantes cubanos, nasceu em Nova York e se mudou para a Flórida em 1993, ainda criança. Formado em Direito pela Loyola University New Orleans, é casado e pai de três filhos, e atua como deputado estadual desde 2017, com pautas voltadas a bem-estar infantil, saúde e integridade eleitoral.
Audiência marcada pelo tarifaço
Em 16 de julho — mesmo dia em que os EUA anunciaram tarifa de 25% sobre produtos brasileiros — Perez foi ouvido pela comissão de relações exteriores do Senado americano. Descreveu o Brasil como parceiro comercial estratégico, dono de “vastas reservas de minerais críticos” para a segurança nacional dos EUA, e disse que pretende “apoiar instituições democráticas brasileiras” e pressionar por “eleições livres e justas”.
A escalada que colocou Perez no centro do imbróglio tem raiz em julho, quando o Washington Post revelou que o Departamento de Estado preparava o envio de diplomatas a Brasília para questionar a integridade das urnas eletrônicas às vésperas da eleição.
Crise de vistos e resposta do Itamaraty
Desde o anúncio da indicação, os dois governos divergiram sobre o próprio processo. O Itamaraty se incomodou com o fato de a Casa Branca ter tornado público o nome de Perez antes de concluir as consultas diplomáticas reservadas que normalmente antecedem a apresentação formal de um candidato a embaixador ao país anfitrião. Washington passou a cobrar do Brasil o agrément, alegando demora; Brasília sustentou que o pedido seguia em análise dentro dos procedimentos diplomáticos habituais.
Segundo apurou a BBC, a revogação do visto da embaixadora Viotti foi resposta direta à demora brasileira em conceder o agrément a Perez. O governo americano chegou a indicar que a medida poderia ser revertida caso o Brasil concedesse a autorização. Em nota, o Itamaraty repudiou a decisão, classificou as justificativas do Departamento de Estado como falsas e acusou Washington de adotar “medidas hostis” e de tentar “interferir na próxima eleição para presidente”.
O episódio não é isolado: o Itamaraty já havia negado, no fim de julho, vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que tentavam discutir integridade eleitoral com autoridades brasileiras — dez dias antes da revogação do visto de Viotti —, o que ampliou a desconfiança do Planalto sobre as intenções de Washington antes das eleições de outubro.
Confirmado pelo Senado americano na sexta-feira (7/8) com 51 votos a favor e 47 contrários, Perez será o primeiro embaixador dos EUA no Brasil desde a saída de Elizabeth Bagley, indicada por Joe Biden — o posto está vago desde janeiro de 2025. Para assumir oficialmente o cargo em Brasília, porém, ele ainda depende da concessão do agrément pelo Itamaraty.
A confirmação pelo Senado americano, no entanto, não alterou o cálculo do governo Lula. Na avaliação de assessores presidenciais, conceder o agrément imediatamente seria ceder à “chantagem americana” dos últimos meses — hipótese fora de cogitação. A posição adotada é de que a análise da indicação só será retomada após as eleições presidenciais de outubro. Diplomatas afirmam que a própria revogação do visto de Viotti tornou quase nula a chance de uma concessão antes do pleito, e que a crise dificilmente será contornada até lá. Nos bastidores, a avaliação é que a estratégia de Washington — acelerada após novas rodadas de tarifas sobre produtos brasileiros — faz parte de uma pressão deliberada para influenciar o cenário eleitoral no Brasil.