Meio ambiente

Estudo aponta outorga de água acima da capacidade real do Cantareira

Novo método de cálculo hidrológico revela que a bacia produz bem menos água do que a Sabesp está autorizada a captar.
Vista aérea do Sistema Cantareira com rodovia e represa, tema central da polêmica sobre a outorga de água do Cantareira

Uma nova metodologia hidrológica batizada de Contabilidade de Água aponta que o Sistema Cantareira produz no máximo 20,97 metros cúbicos de água por segundo — bem menos que os 33 m³/s que a Sabesp capta em condições normais.

O cálculo, que contesta os critérios de outorga usados pela Sabesp, é do engenheiro florestal Osvaldo Ferreira Valente, professor aposentado da Universidade Federal de Viçosa, a partir da área de drenagem e da chuva média das bacias que abastecem grande parte de São Paulo.

Como funciona a Contabilidade de Água

A metodologia criada por Valente trata a bacia hidrográfica como um sistema de entrada e saída, permitindo calcular passo a passo quanto da chuva realmente se transforma em água disponível para captação. Segundo o pesquisador, os modelos matemáticos tradicionais usados no Brasil dependem de dados históricos que já não refletem a realidade atual das bacias, alteradas por décadas de ocupação e uso do solo.

No caso do Cantareira, as bacias que drenam para os reservatórios somam 228.270 hectares e recebem precipitação média anual de 1.450 mm. Descontados 75% de evapotranspiração e 5% de outras perdas — como percolação profunda e exportações —, restam apenas 290 mm por ano de precipitação útil. Multiplicada pela área e convertida em metros cúbicos por segundo, essa parcela resulta na capacidade hidrológica de 20,97 m³/s.

Outorga acima da capacidade real

A Sabesp está autorizada a captar até 33 m³/s em condições normais, 31 m³/s em períodos de atenção e 23 m³/s em situações de restrição. Para Valente, mesmo o volume mínimo autorizado para crises hídricas já ultrapassa a capacidade de produção das bacias, o que empurraria o sistema para o colapso caso os limites legais continuem sendo usados como referência de gestão.

Mudanças climáticas agravam o cenário

Valente alerta que os 1.450 mm de precipitação média anual usados no cálculo podem estar superestimados, já que as mudanças climáticas vêm reduzindo os volumes de chuva na região das bacias do Cantareira. Se a tendência de queda se confirmar, a capacidade real de produção de água do sistema ficará ainda mais distante da outorga atual.

A pressão sobre o regime de chuvas na região não vem apenas do clima global. Um estudo publicado em julho já havia demonstrado que o desmatamento na Amazônia reduz o volume de chuvas em bacias hidrográficas distantes, por meio dos chamados rios voadores — mecanismo que reforça a urgência de revisar os critérios de outorga antes que os parâmetros usados nos cálculos se tornem ainda mais otimistas do que a realidade.

Para o pesquisador, a gestão hídrica do Cantareira precisa deixar de se basear exclusivamente em limites legais e séries históricas e passar a considerar a capacidade real de produção das bacias, especialmente diante de um clima cada vez mais instável.

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