Política

Brasil opera com déficit de até 45% no efetivo das polícias, revela estudo

FBSP aponta que estados usam critérios distintos e sem base técnica para definir o tamanho de suas forças policiais.
Tropa da Polícia Militar em formação com fuzis, representando o déficit de efetivo policial nas forças de segurança do Brasil

O Brasil soma hoje 413 mil policiais militares e 97 mil policiais civis em atividade — um déficit de 34% e 45%, respectivamente, em relação ao previsto pelas leis estaduais, aponta estudo do FBSP divulgado nesta terça-feira (4).

Feito pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o levantamento reúne dados dos 26 estados e do Distrito Federal e expõe desigualdade regional: o Ceará tem 100% do efetivo de PMs previsto em lei, enquanto Tocantins não chega a 35%.

Na Polícia Civil, o cenário se repete: Amapá concentra 98% do efetivo previsto, mas Rondônia não ultrapassa 28%, segundo o FBSP.

Como cada estado se saiu no levantamento

Em números absolutos, São Paulo concentra o maior efetivo dos dois lados: 82 mil PMs e 19 mil policiais civis. Rio de Janeiro (42,5 mil PMs) e Bahia (30,5 mil) completam o topo da lista militar, enquanto Minas Gerais (9 mil) e o próprio Rio de Janeiro vêm logo atrás na Civil. Do outro lado, Acre, Roraima e Tocantins têm as menores tropas do país — nenhuma passa de 3,2 mil PMs.

A diferença entre as duas corporações também está na função: a PM faz o policiamento ostensivo e preventivo nas ruas, enquanto a Polícia Civil investiga os crimes já registrados, conduz inquéritos e apura homicídios e outros delitos contra a vida.

Falta de critério técnico

Para o FBSP, o problema não é só o tamanho do déficit, mas a ausência de um padrão nacional para calcular quantos policiais cada estado deveria ter. Segundo o pesquisador Renato Sérgio de Lima, os números legais funcionam como referência para autorizar concursos, mas não partem de estudos de planejamento de longo prazo nem consideram população, criminalidade ou volume de aposentadorias.

Esse descompasso ganha peso diante da mudança no perfil da criminalidade brasileira. Os golpes de estelionato somaram 2,2 milhões de ocorrências em 2025, superando os crimes patrimoniais de rua — uma tendência que o FBSP considera incompatível com o atual dimensionamento das corporações, sobretudo da Polícia Civil, responsável por apurar esse tipo de crime.

Efetivo reduzido, pressão maior

O déficit de agentes se soma a outro dado preocupante levantado pelo próprio FBSP em julho: a letalidade policial bateu recorde no Brasil em 2025, com 6.602 mortes em ações das forças de segurança — o maior índice desde 2016. Para o Fórum, o retrato é de corporações operando no limite, com menos agentes do que a lei prevê e sob pressão crescente.

O estudo ainda mostra que a distância entre o efetivo real e o previsto varia entre as corporações: a defasagem é menor nas Polícias Militares (34%) do que nas Civis (45%), o que preocupa o Fórum diante do avanço dos golpes digitais — crimes que dependem da capacidade de investigação das delegacias para serem solucionados.

Sem um parâmetro técnico nacional, cabe a cada governo estadual decidir quantos policiais contratar — e, segundo o FBSP, essa escolha tende a refletir mais a disponibilidade orçamentária do que um planejamento baseado em dados de segurança pública.