Quase metade dos brasileiros — 41,2% da população com 16 anos ou mais — reconhece a presença de facções ou milícias no próprio bairro. O dado é do relatório Medo do crime e eleições 2026, divulgado neste domingo pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
São aproximadamente 68,7 milhões de pessoas que convivem diretamente com o poder territorial do crime organizado. Nas capitais, mais da metade dos moradores (55,9%) percebe essa presença.
Mesmo no interior, um terço da população (34,1%) identifica atuação de facções na vizinhança — sinal de que o fenômeno já ultrapassou as fronteiras das grandes cidades.
Governança criminal: quando o crime dita as regras
Para 61,4% dos entrevistados que reconhecem a presença de grupos armados no bairro — 42,2 milhões de pessoas —, o crime organizado influencia muito ou moderadamente as decisões e as regras de convivência local. Samira Bueno, diretora-executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, define esse fenômeno como governança criminal.
O conceito descreve um arranjo em que Estado e crime coexistem na ordenação da vida diária — o que a literatura acadêmica chama de “duopólio de violência”. Na prática, moradores negociam obediência não apenas com as autoridades públicas, mas também com as regras impostas pelas facções.
A capilarização não é coincidência. Levantamento anterior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública já documentava como PCC e Comando Vermelho transformaram cidades médias e pequenas em entrepostos logísticos — processo que o novo relatório agora quantifica em escala nacional. Nos municípios metropolitanos, o índice de reconhecimento chega a 46,0%; nas cidades do interior, a 34,1%.
O PCC, comparado pelo Wall Street Journal às máfias italianas e classificado como o maior grupo criminoso das Américas, com 40 mil membros e operações em 30 países, é um dos protagonistas dessa expansão territorial — escala que ajuda a entender por que sua presença já alcança um terço das cidades do interior brasileiro.
Viver sob domínio de facção eleva risco de violência em 11 pontos
Residir em um bairro controlado pelo crime organizado eleva significativamente a exposição a diferentes modalidades de violência. A taxa nacional de vitimização é de 40,1%, mas nos territórios dominados por facções esse índice sobe para 51,1% — uma diferença de 11 pontos percentuais.
Os dados revelam aumentos sistemáticos por tipo de crime. O percentual de pessoas que tiveram familiar ou conhecido assassinado sobe de 13,1% para 17,6%. Os golpes financeiros digitais crescem de 15,8% para 21,4% nesses bairros — evidência de que o crime organizado também opera no ambiente virtual.
Os crimes de rua seguem a mesma curva: o roubo de celular vai de 8,3% para 12,1%, e o roubo à mão armada passa de 3,8% para 6,5% nos locais com presença de grupos criminosos.
A pesquisa foi realizada pelo Instituto Datafolha entre 9 e 10 de março de 2026, com 2.004 entrevistas em 137 municípios de todo o país, margem de erro de 2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
