O Brasil registrou 2,2 milhões de golpes de estelionato em 2025, média de quatro golpes digitais e tradicionais por minuto, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado nesta quinta-feira (23).
O levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra alta de 429,8% nos registros desde 2018, puxada pela bancarização digital e por facções que já mantêm “escritórios do crime” dedicados a fraudes online.
Como os golpes digitais se espalham pelo país
O crescimento das fraudes acompanha a popularização do PIX e o aumento do acesso a serviços bancários pelo celular. Segundo os pesquisadores Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, “a taxa de registros acompanha o grau de bancarização, digitalização e integração ao sistema financeiro formal de cada estado” — o que explica por que São Paulo e o Distrito Federal lideram o ranking de estelionatos por habitante.
Cartão clonado, PIX e falso funcionário do banco
Entre as fraudes mais comuns estão a clonagem de cartões em maquininhas adulteradas, a troca do cartão da vítima durante uma compra presencial e ligações de falsos funcionários de banco que induzem a vítima a transferir dinheiro para uma “conta segura”. O PIX também é usado em golpes com QR Codes alterados, comprovantes falsos e vendas de produtos que nunca são entregues.
Golpe do familiar e uso de dados pessoais
Outra modalidade recorrente é o golpe do familiar, em que criminosos usam fotos e informações de redes sociais para se passar por parentes ou amigos e pedir dinheiro com urgência. Mensagens falsas sobre pendências no CPF também induzem vítimas a fornecer dados bancários ou instalar aplicativos maliciosos.
Baixo risco de punição atrai o crime organizado
Segundo o anuário, o golpe se tornou atrativo para o crime organizado por unir alta rentabilidade a baixo risco. Facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) mantêm hoje “escritórios do crime” dedicados exclusivamente a fraudes digitais. Para os pesquisadores, mais de 97% dos estelionatos registrados nunca chegam ao Poder Judiciário, o que torna o Brasil um ambiente de riscos excepcionalmente baixos de punição para golpistas.
O relatório argumenta que qualquer resposta que não combine o combate à estrutura das facções com a repressão aos canais de lavagem de dinheiro tende a ser ineficaz.
O mesmo Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostrou outro dado que contrasta com a queda geral da violência: os feminicídios bateram recorde em 2025. O levantamento, divulgado na mesma quinta-feira, também revelou um salto de 67% nos casos de bullying e cyberbullying contra crianças e adolescentes. O avanço do acesso à internet no país, que já chega a 90,5% da população segundo o IBGE, ajuda a explicar por que mais brasileiros ficam expostos a fraudes digitais.