Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade de Washington, nos EUA, identificaram uma possível explicação para o aumento de câncer entre pessoas com menos de 50 anos: quanto mais jovem o paciente, maior tende a ser a diferença entre idade cronológica e idade biológica.
Os casos ilustram a tendência entre jovens: Susanna teve câncer colorretal aos 28 anos e André, câncer de pulmão aos 34 — ambos relatam a experiência nas redes sociais. Alemanha e EUA registram aumento expressivo de diagnósticos entre 20 e 39 anos.
Diferença entre idade real e idade biológica
Idade cronológica é o número de anos vividos; idade biológica descreve o quanto os processos de envelhecimento avançaram em cada órgão — fígado, cérebro e coração podem ter ritmos distintos na mesma pessoa. O estudo, com dados de mais de 150 mil pessoas do UK Biobank, banco biomédico do Reino Unido, mostrou que quem nasceu entre 1965 e 1974 tem diferença maior entre essas duas idades do que quem nasceu entre 1950 e 1954. Um exame com dez mil pessoas dos EUA revelou distância ainda maior entre quem nasceu nos anos 1990 e quem nasceu entre 1965 e 1969.
Segundo os autores, pessoas nascidas nos anos 1990 na Austrália, no Canadá, no Reino Unido e nos Estados Unidos têm ao menos quatro vezes mais risco de desenvolver câncer colorretal precoce do que as nascidas nos anos 1960. Para Ron Jachimowicz, onco-hematologista do Hospital Universitário de Colônia e pesquisador do Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, o estudo é o primeiro a associar diretamente esse gap de idade ao câncer em jovens — ainda que apenas por correlação. “O que não se deve esquecer é que este é um estudo correlacional”, afirmou.
O fenômeno acompanha um cenário global de expansão da doença: a OMS projeta que os diagnósticos de câncer no mundo podem quase dobrar até 2050, chegando a 35 milhões de casos por ano.
Por que os mais jovens envelhecem mais rápido
A idade biológica é medida por testes epigenéticos, análises de sangue, comprimento dos telômeros e avaliações fisiológicas e cognitivas — não existe um exame único e preciso, e o método ainda não é usado na prática clínica. Jachimowicz estima que metade da idade biológica é determinada geneticamente; a outra metade pode ser influenciada por hábitos como exercício regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade e o afastamento de álcool e drogas.
Entre as hipóteses para o envelhecimento acelerado das gerações mais jovens está a obesidade precoce, segundo Tanwei Yuan, epidemiologista do Centro Alemão de Pesquisa do Câncer. “Os jovens tendem a desenvolver obesidade mais cedo e, portanto, por um período mais longo de suas vidas”, afirma. Sedentarismo e sono prejudicado pelo uso de telas também entram na conta. A própria pesquisadora, aos 32 anos, foi diagnosticada no ano passado com um pólipo no cólon — lesão que pode evoluir para câncer se não for tratada.
A ligação entre obesidade precoce e câncer também aparece em outra frente de pesquisa: estudos apresentados na ASCO indicam que canetas emagrecedoras podem ajudar a reduzir a progressão de alguns tipos de câncer. Para Jachimowicz, medir a idade biológica na rotina médica ainda é “objeto de pesquisa científica atual”, mas deve orientar futuras estratégias de prevenção. “Esse é o futuro, algo realmente promissor”, diz.