Um estudo publicado na revista Nature Medicine aponta o herbicida picloram como fator de risco associado ao câncer colorretal diagnosticado antes dos 50 anos — tipo que tem crescido de forma desproporcional nas últimas décadas.
A pesquisa foi liderada por cientistas do Instituto de Oncologia Vall d’Hebron (VHIO), na Espanha, e analisou dados genéticos, ambientais e populacionais de múltiplos grupos de pacientes.
Os resultados foram confirmados em uma meta-análise com nove grupos independentes e em registros de 94 condados dos Estados Unidos ao longo de 21 anos — mesmo após ajustes para fatores socioeconômicos.
O que o estudo investigou
Os pesquisadores analisaram 29 fatores do chamado exposoma — o conjunto de exposições ambientais acumuladas ao longo da vida. Como nem sempre existem dados diretos sobre essas exposições, o estudo utilizou marcadores epigenéticos, ou seja, alterações químicas no DNA que funcionam como rastros indiretos de contatos com substâncias externas.
Ao comparar assinaturas de metilação entre pacientes com câncer colorretal de início precoce (menos de 50 anos) e tardio (mais de 70 anos), os cientistas identificaram três fatores com diferenças expressivas: dieta, tabagismo e exposição ao picloram.
Pacientes mais jovens apresentavam níveis mais elevados de marcadores associados ao pesticida, sugerindo que a exposição pode ter ocorrido ao longo da vida — possivelmente desde a infância.
Mecanismo biológico sugerido
“Observamos que os tumores com alta exposição ao pesticida apresentavam menos mutações no gene APC, um gene fundamental no câncer colorretal que regula a via Wnt, relacionada ao crescimento celular. Isso sugere que a exposição ao picloram pode promover o desenvolvimento do câncer mesmo sem mutações no gene APC”, explicou Jose A. Seoane, um dos autores do estudo.
Além do picloram, a análise encontrou associação com outros pesticidas — glifosato, atrazina, nicosulfuron e esfenvalerato —, mas o picloram foi o único com resultados consistentes em todas as análises realizadas. Uma dieta mediterrânea e maior nível educacional foram associados a menor risco da doença.
Seoane ressaltou que o padrão identificado é regional, o que sugere que a exposição está ligada ao local de uso do herbicida, e não necessariamente ao consumo de alimentos contaminados. O pesquisador também destacou que são necessários mais estudos para confirmar se o picloram está de fato por trás do desenvolvimento precoce da doença.
Por que o câncer colorretal jovem preocupa
O câncer colorretal é o terceiro tipo mais comum no mundo e a segunda principal causa de morte por câncer. Historicamente associado ao envelhecimento — cerca de 90% dos casos ocorrem após os 50 anos —, a doença passou a registrar um aumento preocupante entre adultos jovens sem explicação genômica clara.
Elena Élez, da Unidade de Tumores Digestivos do Hospital Universitário Vall d’Hebron, destacou que os tumores em pacientes mais jovens apresentam características clínicas e patológicas particulares, como maior presença de metástases ao diagnóstico e tumores menos diferenciados. “Em nível genômico, as alterações moleculares são semelhantes e nenhuma alteração específica foi identificada. Por isso, as causas do aumento do câncer colorretal de início precoce permanecem obscuras”, complementou Iosune Baraibar, pesquisador clínico do VHIO.
Os autores concluem que é urgente aprofundar pesquisas sobre os efeitos de longo prazo desses compostos e avaliar medidas preventivas tanto individuais quanto em nível de políticas públicas.
O glifosato, outro pesticida apontado pelo estudo como associado ao câncer colorretal precoce, está no centro de uma batalha jurídica de proporções históricas: a Bayer levou o caso à Suprema Corte dos Estados Unidos na tentativa de encerrar mais de 100 mil processos que responsabilizam a empresa por danos à saúde causados pelo produto.
O estudo é observacional e, portanto, estabelece apenas associações — não relações de causalidade. Ainda assim, os achados reforçam a hipótese de que o avanço do câncer colorretal entre jovens vai além do estilo de vida e envolve exposições ambientais ainda pouco compreendidas.