Um novo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) projeta que o número de novos casos de câncer no mundo pode chegar a 35 milhões por ano até 2050 — quase o dobro dos 20,6 milhões registrados atualmente.
Divulgado em julho de 2026, o documento indica que uma em cada cinco pessoas desenvolverá a doença ao longo da vida. O alerta vai além dos números: a desigualdade no acesso à prevenção, diagnóstico e tratamento segue persistente — e, em alguns casos, se aprofunda.
Sobrevivência depende de onde você nasce
Nos países de alta renda, cerca de 85% dos diagnosticados com câncer de mama ou câncer infantil sobrevivem por pelo menos cinco anos após o diagnóstico. Nos países mais pobres, essa taxa cai para menos de 30%.
A disponibilidade de medicamentos segue o mesmo padrão. Em nações de baixa e média-baixa renda, apenas entre 9% e 54% dos 20 medicamentos prioritários listados pela OMS para oncologia estão acessíveis. Nos países ricos, o percentual vai de 68% a 94%. Outros 23 países sequer possuem instalações de radioterapia.
A África Subsaariana concentra um paradoxo grave: as taxas de diagnóstico são menores do que nas regiões mais ricas, mas o número de mortes é desproporcionalmente alto — reflexo das barreiras ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado.
Esse cenário tem paralelo imediato no Brasil. Estudos publicados em julho mostram que pacientes do SUS com câncer de pulmão ALK-positivo sobrevivem três vezes menos tempo do que os atendidos pela rede privada — reflexo das mesmas barreiras de acesso apontadas pelo relatório da OMS.
Custo empurra pacientes para fora do tratamento
De acordo com a OMS, dois terços dos países ainda não incluem o câncer em seus planos universais de saúde. Em alguns locais, os custos fazem com que até 90% dos pacientes abandonem o tratamento.
Abigail Simon-Hart, sobrevivente de câncer de mama e defensora dos direitos dos pacientes na Nigéria, relatou casos em que famílias precisam escolher entre manter o tratamento ou garantir necessidades básicas — incluindo a manutenção dos filhos na escola.
Quatro em dez casos poderiam ser evitados
A Dra. Isabelle Soerjomataram, vice-chefe da unidade de vigilância da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, destaca que quatro em cada dez novos casos estão ligados a fatores de risco conhecidos: uso de tabaco, infecções, consumo de álcool e excesso de peso corporal.
Nesse contexto, dados recentes do congresso da ASCO ganham relevância: os agonistas de GLP-1, usados no tratamento da obesidade, podem também reduzir a progressão de metástases em ao menos quatro tipos de tumor — o que posiciona as chamadas canetas emagrecedoras como potencial aliado na prevenção oncológica.
O estigma associado à doença também pesa. Simon-Hart relatou ter conhecido mulheres que preferiram morrer a realizar uma mastectomia que poderia salvar suas vidas, devido ao preconceito ligado à retirada da mama.
Em contraponto, a OMS registra avanços concretos: existe um caminho viável para a eliminação do câncer do colo do útero, o consumo de tabaco cai em vários países e a maioria das nações já tem planos nacionais de controle da doença.
Ao final do relatório, os especialistas defendem que os países ampliem investimentos em todas as etapas da assistência oncológica. O apelo é para que a comunidade internacional valorize os cuidados tanto quanto a cura e que os governos fortaleçam o financiamento de serviços que abranjam prevenção, diagnóstico, tratamento e cuidados paliativos.