Agonistas de GLP-1 — as moléculas das populares canetas emagrecedoras — podem reduzir a progressão de metástases em pelo menos quatro tipos de câncer. Os dados foram apresentados no congresso da ASCO, maior evento de oncologia do mundo.
Um estudo com mais de 12 mil pacientes de diferentes países analisou o efeito dessas substâncias em cânceres de estágios iniciais a intermediários, comparando-as com outros antidiabéticos, como os inibidores de DPP-4.
Os resultados mostraram redução significativa da progressão de metástases em câncer de pulmão de não pequenas células, mama, colorretal e fígado.
O que revelou o estudo
A pesquisa comparou pacientes tratados com análogos de GLP-1 — liraglutida, pramlintida, dulaglutida, tirzepatida, lixisenatida ou semaglutida — a outros que receberam antidiabéticos convencionais. Em tumores de próstata, pâncreas e rim, houve tendência de benefício, mas sem significância estatística.
A capacidade dos agonistas de GLP-1 de agir além do controle glicêmico já havia ficado evidente em estudo que mostrou redução de mortes e amputações em diabéticos com doença arterial periférica — o mesmo mecanismo anti-inflamatório sistêmico que os pesquisadores agora investigam no contexto oncológico. Veja mais sobre esse estudo.
Efeitos além do emagrecimento
Além de controlar o peso e a glicose, os agonistas de GLP-1 parecem modular o sistema imunológico e reduzir a inflamação — ambiente favorável ao desenvolvimento tumoral. Pesquisadores também investigam uma ação direta sobre receptores nas membranas das células cancerígenas.
“Existem novas evidências de que pode haver um efeito direto. Nas células tumorais existem vários receptores e proteínas na membrana celular, e parece que essas classes de drogas também exercem alguma ação direta sobre elas”, afirmou o oncologista Paulo Henrique Costa, professor da UFMG e médico da Rede Mater Dei.
O mecanismo mais aceito, porém, ainda é indireto: ao controlar a obesidade — fator de risco central para vários cânceres — as canetas criariam um contexto menos favorável ao avanço da doença.
Cautela e mercado paralelo
Apesar dos dados promissores, os estudos apresentam limitações metodológicas importantes. São retrospectivos — analisam dados do passado sem divisão controlada entre grupos — o que os torna menos robustos do que ensaios clínicos randomizados.
“Não é um ensaio clínico randomizado. Nesse tipo de estudo, você divide os participantes em grupos: um recebe o tratamento, e outro, não, o que permite obter uma evidência muito mais sólida, quase irrefutável”, explicou Costa.
O especialista alertou para o risco do uso sem prescrição médica. Com a popularização das canetas e a existência de um mercado paralelo, o consumo sem orientação adequada pode trazer consequências imprevisíveis para pacientes oncológicos.
Na mesma edição da ASCO, outra descoberta emocionou a plateia: o daraxonrasib, primeira pílula a dobrar a sobrevida no câncer de pâncreas, provocou aplausos entre os mais de 50 mil presentes em Chicago. Conheça as principais descobertas do congresso.
Para Costa, cada avanço contribui para um entendimento maior da doença: “A oncologia é construída assim — ela vai somando conhecimento ao longo do tempo. Com certeza, tudo o que chega com dados tão importantes como esses amplia o nosso entendimento e contribui para o controle de uma condição ainda tão desafiadora.”