A Novo Nordisk apresentou novo pedido de inclusão da semaglutida no SUS com desconto de 59% no preço — uma tentativa direta de superar a barreira financeira que levou à recusa do medicamento em agosto de 2025.
Em paralelo, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, anunciou o início de um estudo com pacientes do Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, para avaliar o impacto do Wegovy na rede pública — passo considerado essencial para uma futura incorporação.
O pedido anterior foi negado pela Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (Conitec) em agosto de 2025 por razões financeiras: o custo estimado chegava a R$ 3,7 bilhões em cinco anos. A nova proposta da empresa reduz esse valor para quase metade, tornando a incorporação mais viável segundo os critérios da comissão — que avalia o custo por paciente em relação ao que já está disponível e ao teto que o SUS pode pagar.
O pedido, ainda que protocolado pela Novo Nordisk, é pela incorporação da substância semaglutida — não de uma marca específica. Caso a Conitec dê o aval, o Ministério da Saúde poderá adquirir qualquer versão disponível no mercado. Não há data definida para a avaliação.
Mercado aberto após queda da patente
O cenário competitivo mudou desde a primeira recusa. Com o fim da exclusividade da Novo Nordisk, novos fabricantes obtiveram autorização para produzir semaglutida no Brasil. A Anvisa aprovou o Ozivy, da EMS, em maio — primeiro concorrente nacional a obter registro sanitário após o fim da exclusividade da Novo Nordisk. Outros 16 pedidos de medicamentos à base da substância estão em análise na agência.
A chegada do Ozivy às farmácias por R$ 452 em meados de junho criou o ambiente competitivo que tornou possível o desconto de 59% agora proposto pela Novo Nordisk para o SUS. A EMS informou que a evolução de sua participação na rede pública depende das definições do próprio Ministério da Saúde em relação ao tratamento.
Lacuna histórica no tratamento público da obesidade
A semaglutida seria o primeiro medicamento para obesidade oferecido pelo SUS. O sistema não conta com nenhuma opção farmacológica para a doença — a única alternativa disponível é a cirurgia bariátrica, que enfrenta longas filas. No Rio de Janeiro, a espera ultrapassa um ano.
Os números justificam a urgência. Mais de 60% da população brasileira está acima do peso e cerca de 25% já enfrenta obesidade, segundo o Vigitel. A doença é estimada como responsável por 1,2 milhão de mortes e 10,9 milhões de novos casos de condições crônicas — como diabetes, doenças cardiovasculares e doença renal —, que pressionam diretamente o sistema público.
Para a endocrinologista Maria Fernanda Barca, doutora pela USP e membro da Abeso, a inclusão poderia tornar o tratamento acessível às populações de baixa renda, as mais afetadas pela doença.
O estudo anunciado no Grupo Hospitalar Conceição vai distribuir Wegovy para pacientes na fila da bariátrica, em parceria com a Novo Nordisk dentro de seu programa de acesso equitativo. O objetivo é traçar um protocolo clínico que embase uma futura decisão da Conitec. A iniciativa se soma a uma parceria anunciada em 2025 entre o ministério, a Fiocruz e a EMS para transferência de tecnologia e produção nacional da substância.
