O Banco Pleno voltou às manchetes nesta quinta-feira (18) após a Polícia Federal incluir seu proprietário, Augusto Ferreira Lima, como alvo da 9ª fase da Operação Compliance Zero — investigação sobre suposto esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro ligado ao Banco Master.
A instituição já estava liquidada. O Banco Central havia decretado a liquidação extrajudicial em fevereiro, após deterioração financeira e descumprimento de normas regulatórias.
Mas o que levou o banco a esse desfecho? A trajetória começa seis décadas antes, em 1967.
De Banco Indusval a Banco Voiter: seis décadas de transformações
A história do Banco Pleno começa no Banco Indusval & Partners (BI&P), fundado em 1967 com foco em crédito corporativo e financiamento do agronegócio. Décadas depois, pressionado por resultados fracos e dificuldades operacionais, o banco passou por sucessivas reorganizações societárias.
Em 2019, sob controle do empresário Roberto de Rezende Barbosa, a instituição foi rebatizada como Banco Voiter e apostou em enxugamento de estrutura e soluções digitais — sem conseguir estabilizar o negócio. Os controladores então partiram em busca de compradores.
Em 2023, uma tentativa de venda para a Capital Consig — com aporte previsto de R$ 100 milhões e transferência de controle — não foi concluída. Isso abriu espaço para negociações com o Banco Master.
A entrada do Master e a disputa pelo pagamento
No início de 2024, os donos do Voiter anunciaram negociações com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, sem revelar os valores envolvidos. O acordo previa a incorporação das áreas de atacado, corretora e gestoras ao conglomerado.
Em julho de 2025, o Banco Central autorizou a transferência do controle para Augusto Ferreira Lima, ex-sócio de Vorcaro, e a instituição passou a se chamar Banco Pleno. A transação deixou rastro de litígios: a família Rezende Barbosa foi à Justiça alegando que a primeira parcela de R$ 100 milhões de uma debênture de R$ 400 milhões nunca foi paga. Mesmo com um aditivo prevendo R$ 200 milhões em duas etapas, os valores seguiram sem quitação. A ação em São Paulo chegou a R$ 470,5 milhões — mas a família desistiu após acordo homologado em novembro, poucos dias antes de o BC intervir no grupo Master.
Exposição a CDBs e colapso de confiança
Apesar de representar apenas cerca de 0,04% dos ativos totais do sistema financeiro em setembro de 2025, o Banco Pleno carregava uma estrutura de passivos concentrada em riscos. Dos aproximadamente R$ 6,8 bilhões em passivos, cerca de R$ 5,2 bilhões estavam em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e R$ 760 milhões em letras financeiras.
Com o aumento da percepção de risco, esses títulos passaram a ser negociados no mercado secundário com taxas bem acima do CDI — sinal de vendas forçadas e deterioração da confiança dos investidores. O Banco Central havia exigido, como condição para aprovar a operação, a apresentação de um plano para eventuais problemas de liquidez. A medida não foi suficiente.
Em fevereiro de 2026, o BC decretou a liquidação extrajudicial após agravamento da situação econômico-financeira, dificuldades para cumprir obrigações diárias e descumprimento de normas regulatórias. Assim encerrou-se uma trajetória de quase seis décadas — com o banco mais lembrado pelas investigações que o envolveram do que pelos negócios que realizou.
A 9ª fase da Operação Compliance Zero resultou em 18 mandados de busca e apreensão cumpridos simultaneamente no Distrito Federal, em São Paulo e na Bahia. Os investigados passaram a cumprir medidas cautelares como monitoração eletrônica e suspensão de passaporte. Augusto Lima, alvo central da operação, já havia sido convocado pela PF para depor sobre o Credcesta — negócio de crédito consignado que os investigadores identificam como ponto de origem de sua relação com Daniel Vorcaro.
