Donald Trump voltou a usar os vinhos franceses como moeda de pressão diplomática. Em entrevista ao New York Post, o presidente americano afirmou que imporá uma tarifa de 100% sobre a bebida caso a França não elimine seu imposto digital sobre empresas do Vale do Silício.
O ultimato foi dirigido diretamente a Emmanuel Macron e chega às vésperas da cúpula do G7, neste domingo (15) em Évian-les-Bains, na própria França — palco que transforma a ameaça em confronto imediato entre os dois líderes.
O imposto GAFAM e a disputa com Washington
No centro do conflito está o imposto sobre serviços digitais da França, apelidado de imposto GAFAM — acrônimo que reúne Google, Amazon, Facebook/Meta e Apple. Em vigor desde 2019, a taxa de 3% incide sobre a receita local dessas empresas, e não sobre os lucros, o que amplifica o impacto sobre as companhias americanas. No ano passado, o mecanismo arrecadou cerca de US$ 700 milhões, segundo dados do Ministério das Finanças francês.
A declaração de Trump ao New York Post desmente o Palácio do Eliseu. Na semana passada, o gabinete de Macron havia afirmado que as duas nações tinham resolvido discretamente a disputa. Uma fonte próxima ao presidente francês chegou a dizer que o tema “não estava mais em debate” — versão que um funcionário do governo americano classificou imediatamente como “imprecisa”.
Em outubro, a Assembleia Nacional francesa chegou a votar pela duplicação do imposto para 6%, mirando as maiores empresas globais, mas a medida foi vetada por ministros. O então ministro da Economia, Roland Lescure, havia alertado que uma taxação “desproporcional” resultaria em represálias igualmente “desproporcionais” dos EUA.
O mercado americano responde por um quinto das vendas globais do vinho francês, movimentando mais de US$ 2 bilhões por ano — o que torna a ameaça de tarifa de 100% potencialmente devastadora para a indústria vinícola da França.
A ameaça aos vinhos franceses não é novidade no repertório de Trump. Em janeiro de 2026, o presidente já havia cogitado tarifas ainda maiores — de 200% — sobre vinhos e champanhes franceses, naquela ocasião para pressionar Macron a aderir ao “Conselho da Paz”, iniciativa americana para mediação em conflitos como a guerra em Gaza.
A proposta de taxar em 100% os vinhos tem origem mais antiga: foi formulada pelo Representante Comercial dos EUA em 2019, na primeira disputa sobre o imposto GAFAM. O porta-voz da Casa Branca, Kush Desai, não comentou diretamente a ameaça atual, mas apontou um memorando presidencial de fevereiro de 2025, no qual Trump determinou que empresas americanas não iriam mais “sustentar economias estrangeiras falidas por meio de multas e impostos exorbitantes”. O documento ordenou que o Departamento do Tesouro e o Representante Comercial Jamieson Greer avaliem a reabertura de investigação formal sobre a taxa francesa.
O ultimato a Paris chega no mesmo G7 em Évian-les-Bains onde o Brasil também tenta negociar com Trump a redução de tarifas que podem chegar a 37,5% sobre produtos brasileiros. Lula embarcou para a cúpula com o tema no topo da agenda bilateral.
A ameaça aos vinhos se encaixa num padrão mais amplo: desde maio, toda a União Europeia corre para fechar um acordo comercial com Washington antes do prazo de 4 de julho imposto por Trump. No continente, reguladores vêm aplicando multas bilionárias contra Google, Apple, Meta, Microsoft e TikTok por violações de privacidade e práticas antitruste — e Washington cada vez menos tolera o que classifica como discriminação sistemática contra empresas americanas.
