O ICE — Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA — passou a tratar eventos de futebol como pontos estratégicos para deter imigrantes, e grupos de direitos humanos temem que a Copa do Mundo 2026 amplifique esse padrão.
É o que aponta um relatório da Human Rights Soccer Alliance, ONG americana que documentou 17 casos de pessoas ligadas ao futebol — jogadores, treinadores e pais de atletas — detidas desde o início de 2025, das quais três foram deportadas.
Sem nenhuma determinação proibindo ações do ICE nos estádios, organizações de defesa de imigrantes pediram nesta semana que estrangeiros evitem viajar aos EUA para assistir aos jogos.
Por que o futebol virou alvo do ICE
O relatório explica que eventos de futebol se tornaram alvo prioritário do ICE por um motivo prático: o esporte é amplamente praticado por comunidades latino-americanas nos EUA, enquanto norte-americanos preferem o futebol americano. Essa concentração torna as partidas locais um ambiente propício para operações de imigração.
Os casos documentados incluem situações extremas. O jogador Emerson Colindres foi detido no dia em que se formava no ensino médio em Ohio e deportado para Honduras — país que havia deixado com os pais aos 8 anos. Em Nova York, dois jogadores foram presos enquanto treinavam no Pier 40, complexo esportivo da cidade. Outro imigrante foi abordado na porta do estádio MetLife enquanto levava os filhos para assistir à final do Mundial de Clubes da FIFA.
Os dados do próprio governo americano reforçam o cenário. Entre 20 de janeiro e 15 de outubro de 2025 — período que começa com a posse de Trump —, o ICE prendeu 92.392 pessoas apenas nas cidades que receberão jogos da Copa, número acima da média nacional, de acordo com a ONG.
A pressão sobre os Estados Unidos cresceu em múltiplas frentes: dias antes da divulgação do relatório, a própria ONU havia cobrado formalmente que o país revisse suas práticas imigratórias durante a Copa, após incidentes com árbitros e delegações estrangeiras que se multiplicaram desde a abertura do torneio — saiba mais em ONU cobra mudança na política imigratória dos EUA durante a Copa.
Alerta à FIFA e risco para visitantes internacionais
Na quarta-feira (10), grupos de defesa dos imigrantes se reuniram em frente à sede da FIFA em Miami para alertar a federação sobre o risco de novas ações do ICE durante os jogos. A ativista Yarelíz Méndez Zamora, do Comitê de Serviço dos Amigos Americanos, foi direta: “Avisamos que haveria detenções arbitrárias, a possibilidade de pessoas terem a entrada negada nos EUA, discriminação racial e muito mais. Tudo isso está acontecendo, já aconteceu e continuará acontecendo.”
O relatório se insere num cenário mais amplo: desde a abertura da Copa, a política imigratória de Trump já havia barrado o árbitro somali Omar Artan e imposto restrições severas à delegação do Irã, sinalizando que nenhum visitante estaria imune à fiscalização — veja como a Copa 2026 abriu marcada pelas tensões geopolíticas em Copa 2026 abre com 48 seleções e tensões geopolíticas pela agenda de Trump.
As organizações expressaram à FIFA preocupação de que as restrições à entrada de estrangeiros possam intimidar torcedores internacionais. Até o momento, nenhuma orientação oficial foi emitida pelo governo americano para proteger visitantes de ações do ICE dentro ou nos arredores dos estádios durante o torneio.
