Um quarto das partidas da Copa do Mundo 2026 deve ser disputado em condições de calor extremo — e pelo menos cinco jogos podem ocorrer em níveis classificados como inseguros para a prática esportiva de alta intensidade.
O alerta é do World Weather Attribution (WWA), grupo internacional de cientistas que publicou nesta quinta-feira (14) uma análise detalhada dos riscos térmicos associados ao torneio.
Os pesquisadores concluem que as mudanças climáticas tornaram essas condições significativamente mais prováveis do que em 1994, última vez que a Copa foi disputada no mesmo continente.
O indicador utilizado pelos pesquisadores é o WBGT (Temperatura de Bulbo Úmido e Globo), que mede o estresse térmico ao qual o organismo é submetido durante atividades ao ar livre. Diferente da temperatura convencional, ele incorpora umidade, radiação solar e outras variáveis ambientais que afetam diretamente a percepção de calor pelo corpo humano.
Segundo o WWA, ao menos 25% das partidas devem ultrapassar os 26°C de WBGT — limiar a partir do qual a FIFPRO, entidade que representa jogadores profissionais globalmente, já recomenda medidas de proteção como pausas para resfriamento. Em pelo menos cinco jogos, a marca pode superar os 28°C, nível classificado como inseguro para esportes de alta intensidade.
Miami no topo do risco — e o Brasil no epicentro
O mapeamento por cidade e estádio revela que Miami lidera o ranking de perigo térmico, com probabilidade quase certa de calor intenso nos jogos disputados no local. É justamente lá que o Brasil enfrenta a Escócia na terceira rodada da fase de grupos.
Kansas City, no Missouri, aparece em seguida. Mesmo com partidas programadas para horários mais tardios, o risco de calor extremo segue elevado. Dallas e Houston, no Texas, também figuram entre as sedes mais preocupantes para atletas e torcedores.
Nova York e Nova Jersey, anfitriãs da final da competição, entram igualmente na lista de alerta: o risco de interrupção por temperatura extrema cresceu cerca de 50% em relação à Copa de 1994. Mesmo nos estádios climatizados, há mais de 30% de chance de o WBGT ultrapassar 28°C nas áreas externas às arenas.
O cenário pode ser ainda mais severo do que as projeções indicam: a OMM alertou que o El Niño deve se formar entre maio e julho de 2026 e se intensificar nos meses seguintes — o que tende a elevar as temperaturas nas cidades-sede durante exatamente o período da competição.
Medidas da Fifa para proteger quem está em campo
Em dezembro de 2025, a Fifa anunciou que todos os jogos da Copa 2026 contariam com duas pausas obrigatórias para hidratação — uma em cada tempo de jogo. A medida tem como objetivo garantir as condições mínimas de segurança para os atletas e responde diretamente às crescentes preocupações levantadas por entidades médicas e sindicatos do futebol.
Os riscos para quem joga e quem assiste nas arquibancadas
Para os jogadores, o esforço físico em temperatura elevada acelera a desidratação e sobrecarrega o sistema cardiovascular. Os primeiros sinais frequentemente passam despercebidos em campo: fraqueza muscular e tontura parecem inofensivos no calor da disputa, mas já funcionam como alertas de que o organismo está no limite.
Em quadros de exaustão térmica — quando o corpo perde sais e líquidos em excesso por conta do calor —, os sintomas incluem náuseas, pele pálida e úmida e fraqueza intensa. O estágio mais grave é a insolação, capaz de elevar a temperatura corporal acima de 40°C e comprometer funções neurológicas, com risco de sequelas permanentes.
Os mesmos riscos se aplicam aos torcedores expostos ao calor externo. Em cidades como Miami, a combinação de temperatura elevada com umidade alta forma uma das condições mais agressivas para o organismo humano — e o perigo não se limita ao interior das arenas.
As pausas de hidratação anunciadas pela Fifa têm respaldo científico direto: ao reduzir a temperatura corporal durante a partida, elas aliviam a sobrecarga cardiovascular e permitem que os atletas se recuperem minimamente antes de retomar o esforço máximo. Para os pesquisadores do WWA, porém, as medidas administrativas precisam ser acompanhadas de uma resposta mais ampla ao aquecimento global, que está tornando eventos esportivos de grande porte cada vez mais perigosos para a saúde pública.
