Torcedores do Irã e do Haiti não podem entrar nos Estados Unidos — e com a Copa do Mundo disputada em solo americano, as duas seleções chegam ao torneio sem poder contar com o apoio presencial de sua torcida.
A proibição, assinada por Trump em junho de 2025, abrange cidadãos de 19 países por razões de segurança nacional. Para comunidades imigrantes que já vivem nos EUA, o risco é outro: relatam medo de ser detidos pelo ICE ao comparecer aos jogos.
Irã sem torcida e sem cota de ingressos
A seleção iraniana é o caso mais emblemático. Mesmo com vistos concedidos aos atletas, cerca de 15 membros da comissão técnica tiveram a entrada negada. A equipe instalou sua base em Tijuana, no México, de onde se deslocará para os três jogos da fase de grupos, todos disputados em território americano.
Além da logística, a Federação de Futebol do Irã teve sua cota de ingressos revogada. Pelo regulamento da FIFA, 8% das entradas de cada partida pertencem às federações das seleções envolvidas — no caso iraniano, esse direito foi simplesmente cancelado.
A participação do país chegou a ser colocada em xeque. O cenário agravou-se após os EUA lançarem uma ofensiva militar contra o Irã, ampliando o embaraço diplomático em torno de uma Copa que o governo americano quer mostrar ao mundo.
Caução suspensa, mas com condições
Para torcedores de Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia, os EUA suspenderam a exigência de caução de até US$ 15 mil (R$ 75 mil) para entrada no país. A medida vale exclusivamente para quem apresentar ingresso para jogos do Mundial — uma concessão pontual dentro de uma política que segue restritiva.
O medo do ICE alcança também quem já vive em solo americano. Imigrantes de comunidades latino-americanas e haitianas relatam insegurança de ir a estádios e Fan Zones — espaços com concentração de milhares de pessoas que podem se tornar alvo de operações de fiscalização migratória.
O temor tem raízes concretas. Um solicitante de asilo foi detido e deportado após assistir a uma partida do Mundial de Clubes em Nova Jersey, episódio documentado pela Human Rights Watch. Segundo levantamento da Human Rights Soccer Alliance, 17 pessoas ligadas ao futebol foram detidas pelo ICE desde o início de 2025 — padrão que organizações temem que a Copa amplifique nos próximos meses.
“Cantar o hino nacional do meu país em um estádio, diante de todo mundo, é um momento histórico que ninguém gostaria de perder”, declarou Emile, haitiano residente nos EUA que preferiu não revelar o sobrenome, em entrevista à AFP.
Em abril, mais de 120 organizações de direitos civis americanas emitiram alerta de viagem advertindo sobre o “risco de graves violações de direitos” contra torcedores, jogadores, jornalistas e visitantes — incluindo recusa de entrada, detenção, deportação e tratamento “cruel, desumano ou degradante” sob custódia migratória.
A ONU também pressionou formalmente os EUA a reverem suas práticas de imigração durante o torneio, após incidentes com delegações e árbitros estrangeiros. O governo Trump negou qualquer risco para quem está em situação legal. A FIFA afirmou estar “comprometida com o respeito de todos os direitos humanos reconhecidos internacionalmente” — resposta considerada insuficiente por grupos de ativistas.
