Brasil e Argentina podem sair na frente no cenário que preocupa o mundo. Segundo a Oxford Economics, os dois países estão entre os menos expostos à alta de preços de alimentos causada pelo El Niño — e podem se beneficiar de condições mais favoráveis para milho e soja.
O diagnóstico vem de um relatório que avaliou os riscos do fenômeno em 20 mercados emergentes. A América do Sul foi classificada como a região menos vulnerável, com Brasil e Argentina no topo dos países que podem ganhar com o evento.
O El Niño é marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico e altera padrões climáticos em escala global. Em regiões produtoras de grãos, os efeitos variam: algumas enfrentam secas, enquanto outras recebem chuvas acima do normal.
No caso do Brasil e da Argentina, as chuvas mais intensas associadas ao fenômeno tendem a favorecer a produção de milho e soja — justamente as culturas que movem o agronegócio sul-americano. É esse potencial que a Oxford Economics destaca como diferencial em relação à maioria dos mercados analisados.
O principal risco para a América Latina, segundo o relatório, não é escassez generalizada de grãos, mas altas pontuais nos preços de alimentos frescos. Inundações podem interromper o abastecimento de hortaliças, tubérculos, frutas e peixes — produtos mais sensíveis a problemas logísticos e de produção local.
O Peru figura entre os países mais expostos da região. A queda na atividade pesqueira, comum em anos de El Niño, representa um risco significativo para a segurança alimentar do país andino.
O El Niño analisado pela Oxford é o mesmo confirmado pela NOAA em junho de 2026 — e sua intensidade ainda é objeto de debate entre cientistas, que avaliam se o evento pode se tornar histórico.
As variações de preço previstas no relatório podem ser intensas, mas tendem a ser passageiras. A Oxford Economics avalia que bancos centrais devem tratar esses movimentos como choques pontuais, sem reagir como se fossem riscos estruturais de inflação.
Para o consumidor brasileiro, o alerta é mais específico do que parece: frutas, legumes e verduras podem encarecer em momentos de inundação ou interrupção logística — mesmo que os preços dos grãos se mantenham estáveis ou recuem.
O contraste entre regiões do próprio país, no entanto, vai além do agronegócio. Enquanto o Sul pode colher benefícios nas lavouras, o Brasil ainda não tem uma política estruturada de adaptação climática — e o mesmo El Niño que pode impulsionar as safras tende a aprofundar a seca no Norte e no Nordeste.
