O Ministério da Fazenda vai revisar para cima sua projeção de inflação para 2026, superando o teto da meta do Banco Central, de 4,5%. A informação foi dada nesta quarta-feira (2) pela secretária de Política Econômica, Débora Freire, em entrevista ao portal Jota.
O motor da revisão é o El Niño: o governo tem agora mais certeza de que o fenômeno climático será intenso e deve pressionar os preços ao longo do segundo semestre, reduzindo a desaceleração esperada da inflação.
A nova projeção da Fazenda ainda não foi publicada — a divulgação oficial está prevista para este mês —, mas Freire adiantou que o número ficará acima dos 4,5% que marcam o teto da meta de inflação do Banco Central. A estimativa, no entanto, deve ser menor do que a já precificada pelo mercado.
O Boletim Focus desta semana apontou expectativa de 5,33% de inflação para 2026. Há semanas o mercado sinalizava que as estimativas da Fazenda corriam o risco de ficar para trás da realidade, com o Focus já registrando 5,30% pela 14ª semana consecutiva.
El Niño como variável de política econômica
A certeza sobre a intensidade do El Niño se construiu ao longo de junho. O Inmet e a NOAA já calculavam 96% de probabilidade de o fenômeno persistir até o verão do Hemisfério Sul — o que ajuda a explicar a mudança de postura da Fazenda. Antes disso, o Cemaden havia alertado o governo sobre o risco de um El Niño forte entre 2026 e 2027, em um país que segue sem política estruturada de adaptação climática.
No campo do crescimento, Freire informou que a projeção de alta de 2,3% do PIB em 2026 se mantém por ora, mas os números ainda passam por revisão antes da divulgação oficial.
O cenário externo também pesou na análise. A secretária destacou que os juros mais altos nas principais economias do mundo dificultam o crescimento brasileiro em 2027. A expectativa de uma taxa Selic mais elevada do que o anteriormente previsto reforça esse risco, ao desacelerar a atividade econômica doméstica.
Arcabouço fiscal e o controle do gasto obrigatório
Sobre as contas públicas, Freire defendeu que o arcabouço fiscal — conjunto de regras que limita o crescimento dos gastos do governo — está cumprindo sua função e contribuindo para a melhora gradual das finanças públicas.
A secretária reconheceu, porém, que o desafio central é conter o avanço das despesas obrigatórias — como aposentadorias e benefícios sociais — dentro do teto de crescimento real de 2,5% ao ano previsto pelo arcabouço. Ela também destacou a importância de ampliar a formalização do mercado de trabalho, o que amplia a base de contribuintes da Previdência e eleva a arrecadação.
