Pesquisadores da USP e do Instituto de Pesca de São Paulo identificaram, em agosto de 2025, a bactéria Citrobacter telavivensis pela primeira vez em alimentos no Brasil.
O achado veio de ostras frescas compradas em mercados de São Paulo e Santa Catarina — e nenhuma das amostras reprovaria nos testes de inspeção sanitária atualmente em uso.
A bactéria é classificada pela OMS como prioridade crítica em resistência a antibióticos, a categoria de maior risco para a saúde pública global.
O que as ostras revelam sobre o ambiente
Ostras são animais filtradores. Elas bombeiam água continuamente para se alimentar e retêm na microbiota tudo que circula no ambiente onde crescem: vírus, metais pesados, resíduos de medicamentos e bactérias. Por isso, funcionam como sentinelas ambientais — o que está na água, está nelas.
No estudo de 2025, as amostras continham não apenas a Citrobacter telavivensis — registrada pela primeira vez em um hospital israelense em 2010 — mas também cepas de Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli resistentes a antibióticos de última geração. Adicionalmente, 35% das amostras apresentaram concentrações de arsênio acima do limite máximo permitido pela Anvisa.
Os pesquisadores identificaram ainda o fenômeno da co-seleção: arsênio e resíduos de antibióticos presentes na água selecionam, simultaneamente, bactérias tolerantes aos dois agentes. O ambiente poluído funciona como uma estufa de resistência bacteriana.
Protocolos que não acompanharam o risco
Quando um molusco chega a uma planta de processamento no Brasil, é avaliado por sistemas reconhecidos internacionalmente — HACCP, APPCC, Boas Práticas de Fabricação. Eles verificam temperatura, higiene e ausência de patógenos como Salmonella e Listeria.
O que não verificam é o perfil de resistência antimicrobiana das bactérias presentes. Um lote pode conter Staphylococcus aureus resistente à meticilina — uma das superbactérias mais perigosas conhecidas — e ainda ser liberado ao consumidor se o número total de microrganismos estiver dentro da norma. Os protocolos foram desenhados antes de a resistência antimicrobiana se tornar um problema de escala na cadeia alimentar.
O cenário se agrava nas próprias plantas de processamento, onde bactérias resistentes formam biofilmes — comunidades bacterianas encapsuladas em matrizes protetoras. Dentro delas, as bactérias são entre cem e mil vezes mais resistentes tanto a antibióticos quanto aos sanitizantes químicos industriais.
O contexto global torna o achado ainda mais urgente. Em outubro de 2025, o relatório GLASS da OMS revelou que uma em cada seis infecções bacterianas registradas entre 2018 e 2023 já apresentava resistência a antibióticos — aumento superior a 40% no período. Em maio de 2025, a Assembleia Mundial de Saúde aprovou um Plano Global de Ação para 2026–2036, estimando que, sem intervenção, as superbactérias podem matar até 39 milhões de pessoas por ano até 2050 — número que supera as projeções de mortalidade por câncer.
No Brasil, o Ministério da Agricultura implementou em 2023 a segunda etapa do Plano de Ação Nacional de Prevenção e Controle da Resistência aos Antimicrobianos na agropecuária. O programa monitora Salmonella em aves, suínos e bovinos — mas pescado e moluscos ainda não estão cobertos pela vigilância.
Na fronteira da pesquisa, estudo de 2023 identificou que a lugdulisina — enzima produzida naturalmente pela bactéria Staphylococcus lugdunensis — é capaz de inibir a formação de biofilmes do S. aureus resistente à meticilina e destruir estruturas já estabelecidas em laboratório. Trata-se de resultado experimental, mas que aponta para agentes anti-biofilme de origem biológica como alternativa futura aos sanitizantes químicos.
O risco também é econômico. Em maio, a União Europeia retirou o Brasil da lista de países autorizados a exportar carne ao bloco por falhas no controle de antimicrobianos na pecuária — um precedente direto do que ocorre quando o Brasil não acompanha as exigências sanitárias internacionais. Com superbactérias chegando agora ao pescado, exportadores do setor podem enfrentar o mesmo destino nos mercados europeu e norte-americano.