O presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, afirmou nesta quinta-feira (16) que a carne brasileira corre risco real de não atender às exigências da União Europeia sobre o uso de antimicrobianos na produção animal.
A Comissão Europeia já retirou o Brasil, em junho, da lista de países aptos a fornecer carne ao bloco. O embargo a carne bovina, de frango, de cavalo e a outros produtos passa a valer a partir de 3 de setembro.
Segundo a Comissão Europeia, a exclusão do Brasil da lista de fornecedores aptos ocorreu porque o país não apresentou as informações necessárias para comprovar que sua produção segue as regras do bloco sobre o uso de antimicrobianos na criação de animais. Essas substâncias tratam e previnem infecções, mas também podem servir como promotoras de crescimento, prática que a legislação europeia restringe.
O impacto vai além da carne bovina: na lista publicada em 2024, o Brasil também estava habilitado a vender frango, carne de cavalo, tripas, pescado e mel à União Europeia. A partir de 3 de setembro, todos esses produtos ficam fora do mercado europeu, enquanto Argentina, Paraguai e Uruguai seguem autorizados a exportar normalmente.
Ajuste às regras pode levar dois anos
Para a Abiec, a adequação não será rápida. Considerando o ciclo da pecuária bovina, a adaptação às novas exigências levaria cerca de dois anos — prazo que deixa o setor sem alternativa imediata para reverter o veto antes de setembro. O governo chegou a editar novas regras de rastreabilidade e criar um protocolo de certificação voluntária para bovinos livres de antimicrobianos, numa corrida contra o tempo que não impediu o embargo.
Ainda que represente fatia pequena do volume total exportado, o mercado europeu é estratégico porque concentra a compra de cortes de maior valor agregado. No ano passado, 5% das exportações brasileiras de carne tiveram a União Europeia como destino. O Ministério da Agricultura já havia transferido ao setor privado a responsabilidade pelo veto, ao revelar que o alerta sobre as exigências europeias foi dado ainda em 2023, três anos antes de o protocolo ser homologado.
China amplia pressão sobre o setor
O bloqueio europeu se soma a outro obstáculo: desde 1º de janeiro de 2026, a China aplica cotas de importação e sobretaxas à carne bovina brasileira. A medida, válida por três anos, fixa cota anual inicial de 1,1 milhão de toneladas — o volume que ultrapassar esse limite é taxado em 55%.
Segundo Perosa, os efeitos já aparecem neste mês, com dificuldade de escoar uma produção que cresceu nos últimos anos. Entre os reflexos, há relatos de férias coletivas em frigoríficos. O aperto chinês já havia levado frigoríficos a reduzir abates depois que o Brasil consumiu 98,5% da cota anual de exportação à China, com esgotamento previsto para agosto.
Para o dirigente da Abiec, é a demanda internacional que ajuda a sustentar os preços no mercado interno. Questionado sobre o impacto no preço da carne no Brasil, ele disse que, num primeiro momento, os valores devem ficar estáveis; depois, a pressão sobre as margens de produção e o aquecimento da economia podem levar a reajustes.
