O representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, abordou o chanceler Mauro Vieira em Paris nesta quarta-feira (3) durante a reunião ministerial da OCDE e declarou que Washington segue aberto a negociações sobre as tarifas impostas ao Brasil.
O encontro breve acontece sob pressão crescente: o Brasil enfrenta sobretaxas de 25% por supostas práticas comerciais restritivas e outros 12,5% por falhas no combate ao trabalho forçado — ameaças que podem se acumular.
Duas frentes tarifárias sobre a mesa
O diálogo entre os dois diplomatas ocorreu às margens de um dos painéis da plenária da OCDE, antes de seu início formal. Segundo a delegação brasileira, Greer tomou a iniciativa de se aproximar de Vieira e declarar que Washington mantém os canais abertos para tratar das questões comerciais bilaterais.
O encontro acontece em meio a duas frentes de pressão abertas pelo escritório do Representante de Comércio (USTR) em menos de 48 horas. Na segunda-feira (1º), o órgão propôs tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, acusando o Brasil de práticas que “oneram ou restringem” o comércio com os norte-americanos.
Na terça-feira (2), uma nova investigação concluiu que 60 países — incluindo o Brasil — não proibiram nem fiscalizaram adequadamente a importação de produtos fabricados com trabalho forçado. A resposta foi a proposta de uma sobretaxa adicional de 12,5% que, segundo o Ministério das Relações Exteriores, pode se somar à anterior. Na véspera do encontro em Paris, o governo brasileiro já antecipava essa combinação e traçava estratégia técnica para contestar as duas taxações.
Vieira respondeu que a posição do Brasil espelha a disposição americana: o país está igualmente aberto ao entendimento. O chanceler avaliou que as duas recomendações do USTR reforçam, na prática, a urgência de intensificar as conversas entre os dois governos.
Prazo de 30 dias como âncora diplomática
Vieira destacou que as negociações ainda se enquadram no prazo de 30 dias acordado pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump durante cúpula em Washington. Foi nesse encontro que os dois líderes criaram um grupo de trabalho bilateral para encaminhar as disputas tarifárias, e o chanceler defendeu que o período seja aproveitado para construir uma solução negociada antes que as tarifas entrem em vigor.
O tom do breve diálogo contrasta com o posicionamento público de Greer nos dias anteriores. Um dia antes, o representante havia defendido as tarifas de 25% sobre o Brasil como “bastante diferenciadas”, sinalizando dureza — o que torna a abordagem conciliatória em Paris um gesto diplomático relevante para a delegação brasileira.
A conversa, apesar de sua brevidade, foi lida pela delegação do Brasil como confirmação de que os dois governos preservam os canais de comunicação. A avaliação interna é de que esse sinal importa num momento em que a pressão tarifária americana sobre o Brasil atingiu seu maior nível em décadas.