O governo Lula divulgou nesta sexta-feira (29) uma nota oficial atacando integrantes da família Bolsonaro que viajaram aos Estados Unidos e, segundo o Planalto, articularam a decisão americana de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
A medida, anunciada pelo Departamento de Estado na quinta-feira (28), foi enquadrada pelo governo como interferência estrangeira em assuntos internos do Brasil. A nota alerta que ações externas desse tipo podem afetar o PIX e fragilizar o sistema financeiro nacional.
Minutos após a publicação da nota, o presidente Lula declarou estar “triste e decepcionado” com o anúncio americano, durante cerimônia sobre investimentos da Petrobras em Sergipe.
A acusação contra a família Bolsonaro
Sem citar nomes diretamente, a nota do Planalto é explícita ao afirmar que “é deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil”. O governo comparou a articulação ao chamado “tarifaço” americano, que, segundo o texto, já havia causado danos à economia brasileira.
A articulação que resultou no anúncio americano passou por encontros de Flávio Bolsonaro com o presidente Donald Trump na Casa Branca e com o secretário de Estado Marco Rubio — episódio que o Planalto agora enquadra como interferência orquestrada por brasileiros. A movimentação acirrou o racha político interno e expôs a dimensão eleitoral do conflito.
O risco ao PIX e ao sistema financeiro
O trecho mais sensível da nota afirma que medidas externas “podem afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses estrangeiros”. A menção ao sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central tem apelo direto junto à população brasileira, que adotou amplamente a ferramenta.
O governo argumenta ainda que ações unilaterais podem “reduzir a capacidade de compartilhamento de informações entre as polícias” e gerar retrocesso no combate ao crime organizado — efeito oposto ao alegado objetivo da medida.
Distinção conceitual no centro do debate
O Planalto rejeita a equiparação entre facções criminosas e terrorismo internacional. Segundo a nota, o PCC e o CV atuam com foco em lucro — especialmente pelo tráfico de drogas e armas — e não por motivações ideológicas, políticas ou religiosas, critério que define, para o governo, o terrorismo de fato.
Em resposta, o governo destacou iniciativas próprias no combate ao crime organizado. Uma lei aprovada recentemente prevê penas de até 80 anos de prisão para integrantes de facções e milícias — a maior sanção prevista em toda a legislação brasileira.
O Planalto também revelou que, em 16 de abril, apresentou ao Departamento de Estado americano uma proposta de cooperação focada em inteligência, controle da lavagem de dinheiro praticada no exterior e rastreamento do tráfico de armas enviadas ao Brasil.
Surpresa e soberania
O Departamento de Estado dos EUA anunciou a classificação na quinta-feira (28) sem informar o governo Lula com antecedência — o que explica o tom de surpresa e indignação da nota oficial. Entenda o anúncio americano e a reação imediata do Planalto.
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública já havia alertado, antes mesmo da nota, para os riscos ao sistema financeiro e à cooperação policial decorrentes de iniciativas unilaterais externas. O fórum também apontou riscos de captura eleitoral no debate sobre facções e terrorismo.
A nota encerra com tom contundente: “A soberania nacional é inegociável”. O governo afirmou manter abertura para parcerias internacionais benéficas, mas rejeitou o uso de “medidas arbitrárias” como pretexto para atacar a economia e as instituições brasileiras.
