O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou nesta sexta-feira (29) estar “triste e decepcionado” com o anúncio do governo americano de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas estrangeiras.
Em cerimônia de investimentos da Petrobras em Sergipe, Lula afirmou que o Brasil combaterá as facções com suas próprias leis e que não aceitará intervenção externa nos assuntos internos do país.
“Quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros”, concluiu o Palácio do Planalto em nota oficial divulgada horas depois.
“Eles não são os terroristas que Trump quer”
Lula reconheceu que CV e PCC são uma ameaça real para moradores de periferia, mas fez questão de separar o conceito americano da realidade brasileira. “Eles não são os terroristas que o Trump quer. Trump quer o Osama Bin Laden. E nós queremos os terroristas brasileiros que estão lá”, disse o presidente.
O petista citou a aprovação da Lei Antifacção e a legislação de combate ao crime organizado como instrumentos próprios do Estado para lidar com essas organizações. A resistência tem base legal: a Lei Antiterrorismo brasileira de 2016 define o crime como atos motivados por razões ideológicas ou religiosas — critério que PCC e CV não preenchem, segundo o secretário nacional de Segurança Pública. Entenda o racha político gerado pela classificação.
Riscos diplomáticos e econômicos na mira do Planalto
Em nota oficial, o Palácio do Planalto qualificou as medidas americanas de “unilaterais e não negociadas” e alertou que podem “enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida de pessoas que nada têm a ver com o crime”.
Entre os impactos listados pelo governo estão a redução do compartilhamento de informações entre polícias dos dois países, riscos ao sistema financeiro e possíveis efeitos sobre inovações como o PIX. O anúncio do Departamento de Estado foi feito na quinta-feira (28) sem comunicar o Planalto previamente, um dia após o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário Marco Rubio em Washington.
Bolsonaro nos EUA e a acusação de “defesa de intervenção”
A nota do Planalto foi direta ao criticar a atuação da família Bolsonaro: classificou como “deplorável” que seus integrantes viajem aos Estados Unidos para “defender intervenção estrangeira no Brasil”, tal como já fizeram em relação ao tarifaço imposto por Washington.
O senador Flávio Bolsonaro chegou a reivindicar protagonismo pela classificação, afirmando ter articulado a medida diretamente com Trump e Rubio — exatamente o movimento que o Planalto enquadrou como pressão estrangeira. Presidenciáveis também divergiram sobre a decisão americana.
Lula ainda citou o caso do ex-deputado Alexandre Ramagem, foragido da Justiça brasileira que aguarda pedido de asilo em território americano — uma indireta sobre quem estaria, de fato, protegendo criminosos.
A decisão formal cabe ao secretário de Estado Marco Rubio, que responde diretamente a Donald Trump. O entendimento é de que a medida conta com aval da Casa Branca e representa consenso na cúpula do governo americano.
