O Departamento de Estado americano anunciou nesta quinta-feira (28) a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A medida entra em vigor em 5 de junho.
O anúncio veio um dia após Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com o secretário de Estado Marco Rubio, e dois dias depois de o senador ter se encontrado com Donald Trump na Casa Branca.
O governo Lula, que atuava nos bastidores para barrar a medida, não foi informado da decisão antecipadamente, segundo fonte ouvida pela GloboNews.
O que muda com a designação
PCC e CV serão enquadrados como Specially Designated Global Terrorists (SDGTs) e Foreign Terrorist Organizations (FTOs) — categorias que impõem sanções financeiras e restrições operacionais nos EUA a qualquer entidade associada aos grupos.
O governo americano afirmou que as duas facções estão entre “as organizações criminosas mais violentas do Brasil”, que “comandam milhares de integrantes” e são responsáveis por “ataques brutais” contra policiais, autoridades e civis.
Para Washington, a atuação dos grupos já ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da região e os próprios EUA. Marco Rubio reforçou a avaliação em redes sociais, citando a presença das facções em solo americano.
A medida reforça o compromisso da administração Trump de “desmantelar cartéis e organizações criminosas” no hemisfério, segundo o comunicado oficial.
Por que o Brasil se recusou a fazer o mesmo
Em maio de 2025, o chefe interino do Departamento de Sanções dos EUA, David Gamble, pediu ao governo brasileiro que classificasse PCC e CV como terroristas. O pedido foi negado. O secretário nacional de Segurança Pública, Mario Sarrubbo, argumentou que as facções não se enquadram na definição constitucional de terrorismo.
A Lei Antiterrorismo brasileira, de 2016, define o crime como atos motivados por xenofobia ou discriminação de raça, etnia, cor ou religião — critério que, segundo o governo, as organizações criminosas não preenchem.
Há registros de integrantes do PCC em cinco estados americanos: Flórida, Nova York, Nova Jersey, Connecticut e Tennessee. Em Massachusetts, o procurador federal anunciou acusações contra 18 brasileiros com suposta ligação ao grupo.
Em abril, o The Wall Street Journal relatou que autoridades americanas já haviam identificado membros do PCC atuando em território local. O PCC é considerado o maior grupo criminoso das Américas, com presença em cerca de 30 países e mais de 40 mil membros — escala que reforça a avaliação norte-americana sobre a ameaça transnacional da organização.
A designação foi mantida mesmo após parlamentares democratas nos EUA alertarem Rubio, em maio, de que a classificação poderia prejudicar as relações bilaterais e dificultar estratégias eficazes de combate ao crime transnacional.
A decisão integra a nova estratégia de contraterrorismo de Trump, que ampliou o conceito de ameaça para incluir cartéis e organizações criminosas transnacionais no hemisfério.
Dois dias antes do anúncio, Flávio Bolsonaro havia pedido pessoalmente a Trump na Casa Branca a designação do PCC e do CV como terroristas — encontro que o próprio senador descreveu como breve e protocolar.
