O presidente do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), anunciou nesta terça-feira (26) que vai instalar a CPI da Adultização para investigar crimes sexuais e violência praticados contra crianças e adolescentes no Brasil.
Alcolumbre afirmou que acionará as lideranças partidárias para que indiquem os parlamentares que vão integrar a comissão “o mais rápido possível”. Quando questionado sobre a CPI do Banco Master — com sete requerimentos represados no Congresso —, o presidente desconversou.
Como a CPI da Adultização foi proposta
A comissão foi sugerida pelo senador Magno Malta (PL-ES) em agosto de 2025, após o influenciador digital Felca publicar um vídeo no YouTube denunciando a exploração de crianças e adolescentes por criadores de conteúdo adultos. O caso ganhou tamanha repercussão que, em menos de um mês, o Congresso aprovou o chamado ECA Digital, lei voltada a proteger menores no ambiente digital.
“A violência tem crescido assustadoramente e compreende desde tentativas de abusos e violências físicas, emocionais e psicológicas, passando por pedofilia e exploração sexual, até homicídios”, justificou Malta ao apresentar o pedido, que reuniu a assinatura de 31 senadores — a maioria da oposição ao governo federal.
Estrutura e prazo da comissão
A CPI da Adultização será composta por 18 senadores, sendo 11 titulares e sete suplentes, com prazo de funcionamento de 180 dias — o que significa que os trabalhos só encerrariam após as eleições de outubro.
Para entrar em funcionamento, as lideranças partidárias precisam indicar seus representantes, sem prazo definido para isso. Somente após essas indicações será marcada a primeira sessão, em que serão eleitos o presidente, vice-presidente e relator da comissão.
Com sete requerimentos de CPI e CPMI do Master acumulados sem previsão de instalação, o movimento de Alcolumbre em favor da CPI da Adultização foi lido por parlamentares como mais uma manobra para adiar as investigações sobre o banco — como detalhamos nesta reportagem.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) foi direto na crítica: “É uma CPI importante, que conta com meu apoio integral e que tem óbvios méritos, mas parece evidente o esforço para empurrar o escândalo do Master para baixo do tapete. Como já disse diversas vezes, não vai adiantar, por conta do tamanho dos crimes e dos envolvidos”.
Nos bastidores, parlamentares de todos os espectros políticos já admitiam, sob reserva, que ninguém na cúpula do Congresso queria a CPI do Master instalada — percepção que reforça as suspeitas de Vieira, conforme apuramos anteriormente.
Histórico de CPIs sobre violência infantil
Esta não é a primeira comissão a investigar crimes contra menores no Congresso Nacional. Ao todo, seis CPIs se dedicaram ao tema: três na Câmara dos Deputados, duas no Senado e uma mista. O próprio Magno Malta presidiu duas delas — a CPI da Pedofilia, em 2008, e a CPI dos Maus-Tratos Infantis, em 2017. Apenas a primeira, instaurada em 1995, encerrou sem relatório aprovado.
Questionado sobre a prioridade dada à CPI da Adultização em relação ao Master, Alcolumbre justificou pela ordem de espera dos requerimentos. Vale lembrar que, dias antes desse anúncio, o presidente do Senado já havia se recusado a ler os requerimentos da CPMI do Master em sessão do Congresso, reafirmando que a inclusão de pautas é prerrogativa exclusiva da presidência.
