Governo e oposição fazem discurso inflamado pela abertura de uma CPI para investigar o Banco Master. Fora das câmeras, o tom muda radicalmente.
Parlamentares de todos os espectros políticos admitem, sob reserva, que ninguém na cúpula do Congresso quer a comissão instalada.
Um deputado do Centrão é direto: uma CPI “teria o potencial de atingir muita gente” — e essa gente está dentro das próprias casas legislativas.
Por que a comissão não sai do papel
A leitura que circula nos bastidores é que o discurso a favor da CPMI tem função eleitoreira e de autoproteção — não representa uma proposta efetiva. Nenhum parlamentar quer assumir o risco de uma comissão que pode ir além do roteiro previsto.
Há também o argumento logístico: o calendário eleitoral de 2026 comprime o tempo útil do Congresso. Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), estão entre os que menos têm interesse em avançar com a criação.
Existem ao menos dois requerimentos de CPMI com assinaturas suficientes para instalação. O requerimento depositado em 30 de abril reunia 181 deputados e 35 senadores — margem folgada acima do mínimo constitucional —, mas a instalação entrou no jogo das articulações políticas antes mesmo de chegar ao plenário.
A sessão que enterrou a comissão
Alcolumbre presidiu a sessão que votou o veto à Lei da Dosimetria e deliberadamente deixou de fora a leitura do requerimento da CPMI. Na mesma sessão em que o Congresso abriu três precedentes históricos, a pauta da comissão foi bloqueada — movimentos que parlamentares de esquerda interpretam como parte de um mesmo padrão de controle sobre a agenda legislativa.
Lindbergh Farias (PT-RJ), Otoni de Paula (PSD-RJ) e Fernanda Melchionna (PSOL-RS) acusam a oposição — inclusive Flávio Bolsonaro — de ter firmado um acordo com Alcolumbre para derrubar os vetos sem instalar a CPMI. O presidente do Senado e parlamentares da oposição negam qualquer acerto.
O gatilho da semana e os cálculos eleitorais
A pressão ganhou novo combustível nesta semana. O Intercept Brasil revelou áudio e mensagens entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Flávio chamava o banqueiro de “irmão” e cobrava R$ 134 milhões para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro — episódio que, paradoxalmente, empurrou o próprio senador exposto a liderar o coro pela CPMI.
Governistas admitem que uma CPMI seria positiva eleitoralmente — mas somente se o governo controlar a relatoria e a presidência da comissão. Sem essa garantia, o entusiasmo público não se converte em ação concreta.
O senador Alessandro Vieira (MDB-SE) lembrou que, em março, senadores recorreram ao Supremo Tribunal Federal com um mandado de segurança para forçar a instalação da CPI. Até agora, sem resultado.
O líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), disse que a oposição desistiu da CPMI na última sessão e prometeu articular pessoalmente com Alcolumbre a criação da comissão — mas o próprio líder reconhece que o colegiado pode não se concretizar pela proximidade do período eleitoral.
