O Financial Times publicou reportagem afirmando que o fim da escala 6×1 no Brasil colocaria o país “em linha com grande parte do mundo ocidental”. A proposta tramita no Congresso com apoio do governo federal.
São 15 milhões de trabalhadores formais que hoje cumprem a escala de seis dias de trabalho por um de folga. Outros 37 milhões se beneficiariam com a redução de 44 para 40 horas semanais sem perda salarial, segundo o governo.
O jornal britânico, porém, adverte: a aprovação está “longe de ser garantida” num legislativo “cada vez mais hostil e dominado por conservadores”.
“Enquanto alguns no Ocidente defendem uma semana de quatro dias na era da inteligência artificial, o Brasil só agora busca reduzir a jornada de milhões de seus trabalhadores de seis para cinco dias”, escreveu o FT na reportagem intitulada Lula propõe o fim da semana de trabalho de seis dias no Brasil.
Os dados reforçam o contraste: brasileiros trabalharam, em média, quase 2 mil horas em 2023 — cerca de 50% a mais do que os alemães, que registraram 1.335 horas, segundo o Our World in Data. O jornal lembra ainda que maio marca o centenário da Ford, primeira grande empregadora dos EUA a adotar o fim de semana de dois dias.
Custos e benefícios em disputa
A Fecomércio-SP estima que a redução para 40 horas semanais pode elevar os custos por hora em 10%. Entidades patronais alertam para riscos à criação de empregos e até demissões.
O Ipea, por outro lado, afirma em estudo que os custos seriam suportáveis, sem provas concretas de perda de postos de trabalho.
O projeto enviado por Lula ao Congresso em 15 de abril instituiu o modelo 5×2 com urgência constitucional — mecanismo que trava a pauta legislativa se não houver deliberação em 45 dias em cada Casa.
No fim de abril, as propostas avançaram em comissões. A CCJ aprovou a admissibilidade das PECs e Hugo Motta anunciou a instalação de uma comissão especial, que agora analisa os textos antes de uma eventual votação nos plenários da Câmara e do Senado.
Pauta eleitoral de olho em outubro
O FT aponta que apoiadores de Lula acreditam que, mesmo sem aprovação antes das eleições, a pauta daria ao presidente vantagem sobre seu principal rival: o senador Flávio Bolsonaro, no pleito de outubro de 2026.
O jornal descreve o “ex-sindicalista Lula” como alguém que busca “se reconectar com sua base trabalhadora”. No primeiro mandato, de 2003 a 2010, Lula recebeu elogios internacionais por reduzir a pobreza. Na gestão atual, isentou do imposto de renda os trabalhadores de baixa renda, aumentou o salário mínimo e reforçou benefícios sociais.
Desde a Constituinte de 1987, quando o próprio Lula defendia na tribuna a semana de 40 horas, o Brasil tenta avançar numa pauta que países ocidentais consolidaram décadas atrás.
O FT traz ainda ressalva de pesquisadores do FMI: a solução não seria forçar mais horas de trabalho, mas inserir mais pessoas no mercado — por meio de licença parental mais abrangente e estímulo ao trabalho em idades mais avançadas. O jornal observa que a cultura de longas jornadas nos EUA é um dos motivos pelos quais trabalhadores americanos ganham mais do que europeus.