A estatal que comanda as usinas nucleares de Angra dos Reis pode drenar recursos do Tesouro Nacional em 2027. A ENBPar, holding controladora da Eletronuclear, foi incluída no Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO) de 2027 como candidata a receber um aporte federal.
O documento foi enviado pelo governo ao Congresso Nacional na semana passada. A pressão vem da situação financeira da Eletronuclear, responsável pelas usinas Angra 1 e 2 e pela inconclusa Angra 3.
Angra 3 e extensão de Angra 1 drenam o caixa
A Eletronuclear gasta mais de R$ 1 bilhão por ano só com a manutenção de Angra 3, obra iniciada há décadas e ainda sem prazo definido para conclusão. Além disso, a empresa precisa investir na extensão da vida útil de Angra 1, o que pressiona ainda mais o balanço.
O presidente interino da Eletronuclear, Alexandre Caporal, admite que a empresa aguarda fôlego temporário com a emissão de debêntures. Mas alerta: mesmo com esse recurso, a situação “estrutural” da estatal ainda precisa ser resolvida.
Capital dividido entre o Estado e o grupo J&F
A estrutura acionária da Eletronuclear foi redesenhada após a privatização da antiga Eletrobras. Hoje, a ENBPar detém 64,7% do capital votante, garantindo à União o controle estratégico. O restante está com a Âmbar Energia, braço do grupo J&F, que comprou em outubro de 2025 a participação que ainda estava com a Axia — nome adotado pela Eletrobras após a privatização — por cerca de R$ 535 milhões.
Com a operação, a Âmbar ficou com cerca de 36% do capital votante e 68% do capital total, assumindo também obrigações financeiras associadas ao projeto de Angra 3, incluindo debêntures vinculadas à obra.
A necessidade de aporte à ENBPar consta do mesmo Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 em que o governo propõe uma meta de superávit recorde de R$ 73,2 bilhões — uma contradição que o texto do PLDO reconhece sem resolver. Entenda: Governo dobra ambição fiscal e propõe superávit de R$ 73,2 bi para 2027.
A comparação que o presidente interino da Eletronuclear fez com os Correios não é retórica vazia. Em fevereiro deste ano, Caporal foi direto: “Se não houver uma solução, seremos os Correios amanhã”. A estatal postal, usada como alerta, acumula um rombo em espiral que o TCU já classificou como “alarmante” e que pode chegar a R$ 23 bilhões em 2026. Saiba mais: TCU leva ao Congresso o rombo bilionário dos Correios.
O aporte à ENBPar se insere num quadro ainda mais amplo: as estatais federais acumularam déficit de R$ 4,1 bilhões só no primeiro bimestre de 2026, o pior resultado para o período desde 2002. Em 2025, o rombo anual somou R$ 5,1 bilhões, o segundo pior da história. Estatais federais acumulam rombo de R$ 4,1 bi no pior início de ano da história.
O cálculo, elaborado pelo Banco Central, exclui Petrobras e instituições financeiras públicas como Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e Banco do Nordeste. Entram na conta Correios, Infraero, Serpro, Dataprev, Hemobrás, Casa da Moeda e Emgepron, entre outras.
A própria Infraero também aparece no PLDO com sinal amarelo. O governo não aponta necessidade imediata de aporte, mas reconhece que a perda de concessões de aeroportos para a iniciativa privada reduziu receitas e pode comprometer a sustentabilidade da empresa no longo prazo.
