A startup chinesa DeepSeek lançou nesta sexta-feira (24) o DeepSeek-V4, um novo modelo de inteligência artificial que promete custos “drasticamente reduzidos” de computação e memória. O anúncio reacende a disputa tecnológica entre China e Estados Unidos — e chega um dia após a Casa Branca acusar entidades chinesas de tentarem roubar tecnologia americana de IA em larga escala.
O modelo foi disponibilizado em duas versões: o V4-Pro, com 1,6 trilhão de parâmetros, e o V4-Flash, versão mais leve com 284 bilhões de parâmetros e foco em eficiência econômica.
O V4 suporta um comprimento de contexto de um milhão de tokens — fragmentos de texto que incluem palavras e pontuação —, colocando-o no mesmo patamar do Gemini, o modelo do Google. O comprimento de contexto determina o quanto de informação um modelo consegue processar para executar uma tarefa.
Em termos de “conhecimento de mundo”, um benchmark de raciocínio, o V4-Pro fica atrás apenas da versão mais recente do Gemini, segundo a própria DeepSeek. Uma versão prévia de código aberto já está disponível, mas a empresa não informou quando a versão final será lançada.
Especialistas descrevem o V4 como um “ponto de inflexão” em termos de hardware e custo. “Se o suporte a contextos ultralongos se tornar um recurso padrão, o processamento de textos extensos deverá sair dos laboratórios de pesquisa e entrar em aplicações comerciais convencionais”, afirmou um analista citado pela DeepSeek. O modelo também foi otimizado para ferramentas populares de agentes de IA, como Claude Code, OpenCode e CodeBuddy.
O novo lançamento ocorre num momento em que a OpenAI — principal rival americana — acaba de captar US$ 122 bilhões numa rodada histórica, sendo avaliada em US$ 852 bilhões, evidenciando a escala dos recursos que os americanos mobilizam para manter a liderança no setor.
Marco para a indústria chinesa
O analista veterano Max Liu classificou o V4 como um “marco” para as empresas chinesas de IA. “Isso é positivo para toda a indústria doméstica. Pode oferecer modelos melhores para usuários locais, e agora podemos esperar mais produtos e um mercado mais competitivo”, disse.
A DeepSeek, com sede em Hangzhou, ganhou projeção global em janeiro do ano passado quando seu modelo R1 abalou suposições sobre a dominância americana no setor. Na época, o chatbot chegou a custar 18 vezes menos que o ChatGPT e seu desempenho comparável ao de rivais ocidentais provocou queda nas ações do setor — evento descrito como o “momento Sputnik” da inteligência artificial.
A popularidade da empresa trouxe, porém, questionamentos sobre privacidade de dados e censura: o chatbot frequentemente recusa responder perguntas sobre temas sensíveis, como o massacre da Praça da Paz Celestial de 1989. Ainda assim, ferramentas da DeepSeek são amplamente adotadas por governos municipais, instituições de saúde e o setor financeiro na China, impulsionadas pela estratégia de código aberto — em contraste com os modelos proprietários da OpenAI e de outros concorrentes ocidentais.
O anúncio desta sexta-feira coincide com um momento de reestruturação no setor: a Meta planeja cortar um décimo de sua força de trabalho enquanto investe pesado em IA, e relatos indicam que a Microsoft também avalia reduzir seu quadro de funcionários.
