A temporada da gripe de 2026 chegou antes da hora e com força incomum. Até 17 de abril, o Ministério da Saúde registrava 4.181 casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) provocados pelo vírus influenza — e 259 mortes confirmadas.
Os números superam com folga os registros do mesmo período de 2025. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) projeta que a tendência de alta se mantenha em 14 das 27 Unidades da Federação.
O sinal de alarme não é novo: em dezembro de 2025, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) já alertava para o risco de uma temporada antecipada e mais intensa — e o cenário se confirmou.
Por que a gripe está mais grave neste ano
A OPAS apontou como fator de risco o aumento significativo da atividade do vírus, ligado ao subclado K (J.2.4.1) do Influenza A(H3N2) — cepa que concentra a maioria dos casos no Brasil nesta temporada. Embora não seja possível atribuir a crise exclusivamente a essa variante, a detecção regional de casos e o perfil predominante do vírus no país reforçam essa hipótese.
A gripe costuma ser subestimada pela população, mas os dados globais revelam a dimensão do problema: a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o influenza sazonal cause cerca de 500 milhões de casos por ano, entre 3 e 5 milhões graves, e de 290 mil a 650 mil mortes. Crianças pequenas, idosos, gestantes e imunossuprimidos são os mais vulneráveis.
O que a ciência diz sobre a vacina
Uma metanálise publicada em 2025, com base em 165 estudos conduzidos em diferentes regiões do mundo, mostrou que a vacinação contra o influenza reduziu em 42% as hospitalizações, em 36% a mortalidade, em 52% as internações em UTI, em 55% a necessidade de ventilação mecânica e em 51% os casos de pneumonia.
A vacina desta temporada, segundo estudos em modelos animais, também oferece proteção contra o subclado K mesmo sem contê-lo na fórmula — dado relevante diante do perfil do surto atual.
O Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece a vacina gratuitamente o ano todo para crianças de 6 meses a menores de 6 anos, gestantes e pessoas com 60 anos ou mais. Em campanhas anuais, outros grupos prioritários também são contemplados.
Cobertura vacinal trava muito abaixo da meta
Apesar da oferta gratuita e das evidências científicas, a adesão à vacinação contra a gripe segue baixa. Em 2025, a cobertura da campanha na Região Norte foi de apenas 41,1%, enquanto nas demais regiões ficou em 54,15%. A meta do Ministério da Saúde é de 90% — e está longe de ser alcançada.
As razões são múltiplas: dificuldade de acesso às unidades de saúde, falta de orientação por parte dos profissionais de saúde, a percepção equivocada de que a gripe é uma doença banal e a circulação de desinformação nas redes sociais. Um dos mitos mais persistentes é o de que a vacina causa gripe — o que é impossível, já que os vírus na fórmula são inativados. Outro equívoco comum é o de que o imunizante não funciona, apesar de as evidências científicas apontarem o contrário.
A tensão entre orçamento público e saúde coletiva não é exclusividade da gripe: o Ministério da Saúde também decidiu não incorporar a vacina contra meningite B ao SUS por alto custo, decisão que expõe os limites do financiamento público para a imunização no Brasil.
A campanha de vacinação contra a influenza já está em andamento nas regiões Centro-Oeste, Nordeste, Sudeste e Sul. Muitos municípios liberaram o imunizante para toda a população; a rede privada também é uma alternativa. Quem faz parte dos grupos prioritários pode atualizar a caderneta agora — antes do pico da temporada.
