Saúde

Relatório alerta: misturas de drogas sintéticas elevam risco de morte nas Américas

De 2019 a 2025, dois em cada três alertas sanitários registraram drogas adulteradas; na Argentina, mistura com carfentanil matou 24 em 48 horas
Buenos Aires sombria refletindo a crise de drogas sintéticas e misturas imprevisíveis que afetam as Américas

Dois em cada três alertas sanitários emitidos no continente americano entre 2019 e 2025 descreviam drogas com duas ou mais substâncias misturadas. O dado é do Observatório Interamericano sobre Drogas, cujo relatório foi publicado nesta quarta-feira (22).

São as misturas — e não as novas moléculas — que definem o risco atual. O mercado é moldado por combinações instáveis como fentanil com xilazina, um sedativo veterinário, ou o “tuci”, que pode conter ketamina, MDMA ou outros componentes que variam de cidade para cidade.

Sistema de alerta conecta 19 países em sete anos

O Observatório Interamericano sobre Drogas implantou um sistema regional de alerta precoce em 2019, quando apenas quatro países participavam da rede. Hoje, 19 nações trocam informações sobre tendências de substâncias potencialmente perigosas para os sistemas de saúde da região.

“O mercado é definido por misturas imprevisíveis, e não por uma única substância. São as misturas instáveis, e não as novas moléculas, que definem o risco”, afirma o relatório do Observatório.

As adulterações não são demanda dos consumidores. Segundo Marya Haynes, chefe do Observatório, os vendedores testam combinações de acordo com o estoque disponível — o que torna o produto final imprevisível até para quem o comercializa.

Um episódio registrado na Argentina em 2022 ilustra a dimensão do perigo: um lote de cocaína adulterada com carfentanil causou 24 mortes e 80 hospitalizações em menos de 48 horas.

Tuci sem fórmula fixa e opacidade de preços dificultam controle

O “tuci”, conhecido também como “cocaína rosa”, circula nas ruas de diversas cidades latino-americanas, mas não carrega os mesmos ingredientes em todos os lugares. A composição varia conforme a disponibilidade de substâncias no estoque dos vendedores, criando um risco ampliado: o consumidor não sabe o que está ingerindo.

“Isso cria uma espécie de risco para os consumidores”, afirmou Haynes à AFP. A especialista também destacou a dificuldade de monitorar preços nesse mercado ilícito: “Há muito pouca informação sobre preços; quando recebemos essa informação, ela aponta em muitas direções.”

A expansão da rede de monitoramento — de quatro para 19 países em sete anos — demonstra avanço institucional. Ainda assim, o relatório evidencia que o mercado de drogas sintéticas tem se adaptado com velocidade superior ao ritmo das respostas sanitárias oficiais na região.