Um levantamento inédito revela que a comercialização de receitas e atestados médicos falsos explodiu nas redes sociais, especialmente no Telegram. O mercado clandestino cresceu mais de 20 vezes desde 2018, com plataformas digitais lucrando por meio de anúncios e recomendações de grupos ilegais.
Pesquisadores e entidades médicas alertam para os riscos à saúde pública, enquanto propostas de regulação seguem paradas no Congresso e medidas concretas ainda não foram aplicadas contra as empresas envolvidas.
Funcionamento do esquema e lucros das plataformas
O Telegram se destaca como principal ambiente para a venda de documentos médicos falsos. Usuários encontram facilmente grupos ao buscar termos como ‘receita falsa’ e, ao pagar por contas premium, recebem recomendações de canais semelhantes, ampliando o alcance do mercado ilegal. “A plataforma recebe para permitir que canais ilegais se tornem mais visíveis. É um ciclo vicioso, com lucro, ausência de regulação e impunidade”, afirma Ergon Cugler, pesquisador responsável pelo levantamento.
Além do Telegram, plataformas como Google, Facebook, Instagram, X e TikTok também são usadas para a comercialização. O g1 identificou anúncios pagos de documentos médicos falsos no Google e na Meta, enquanto no TikTok e X, vendedores detalham e oferecem seus produtos abertamente.
Regulação e respostas das empresas
Apesar da gravidade, o Brasil não exige representação legal das plataformas no país, dificultando ações judiciais. O PL das Fake News, arquivado, previa mudanças nesse cenário. Uma decisão recente do STF permite responsabilização civil mesmo sem ordem judicial formal, mas nenhuma medida concreta foi aplicada até agora. O Telegram não respondeu à reportagem, e Google, Meta e X também não se pronunciaram. O TikTok afirma atuar com uma equipe robusta para remover conteúdos nocivos.
Riscos à saúde pública e impacto social
Especialistas alertam que o acesso facilitado a medicamentos controlados sem orientação médica expõe a população a graves riscos. Marun Cury, da Associação Paulista de Medicina, destaca que a prática configura exercício ilegal da medicina e coloca vidas em perigo. “Esse tipo de fraude mina a confiança nas instituições, enfraquece os sistemas de saúde e abre espaço para riscos reais — inclusive à vida”, afirma.
Como funciona o mercado ilegal
Vendedores oferecem receitas brancas, azuis e amarelas, todas com carimbos e dados reais de médicos, além de atestados personalizados. Bots, perfis falsos e marketplaces organizados facilitam a entrega e dificultam o rastreamento. Em 2025, até julho, conteúdos desse tipo já foram visualizados quase meio milhão de vezes, com mais de 27 mil participantes ativos em comunidades do Telegram.
Medidas de combate e desafios
O Conselho Federal de Medicina (CFM) criou um sistema digital para rastrear atestados, mas sua implementação foi suspensa por decisão judicial após ação do Movimento Inovação Digital. A Anvisa, por sua vez, lançou um sistema nacional para emissão e controle de receitas digitais, em fase piloto, que promete ampliar a segurança e reduzir fraudes. “A proposta é fechar as pontas do fluxo da prescrição, reduzir fraudes e permitir ações mais eficazes de vigilância”, explica Thiago Brasil Silverio, da Anvisa.