As sabatinas para escolher o próximo secretário-geral da ONU começaram nesta terça-feira (21), em Nova York, com quatro candidatos na disputa. O processo marca a saída de António Guterres, que encerra seu segundo mandato em 2026.
Na corrida, o Brasil deu seu recado: quer Michelle Bachelet no cargo. O Itamaraty formalizou o apoio em fevereiro, apostando na ex-presidente chilena para quebrar um jejum de 80 anos — em toda a história da ONU, nenhuma mulher jamais ocupou o posto máximo da organização.
Quem é Michelle Bachelet
Médica e socialista, Bachelet governou o Chile por dois mandatos não consecutivos — entre 2006 e 2010 e novamente entre 2014 e 2018. No segundo governo, assumiu com a promessa de reformar o sistema educacional e tributário e reduzir desigualdades sociais.
No plano multilateral, ganhou projeção como alta comissária da ONU para os Direitos Humanos, cargo no qual criticou ataques às instituições democráticas e defendeu transparência eleitoral em diferentes países, incluindo o Brasil. Também chefiou a ONU Mulheres como diretora-executiva — um currículo que o Itamaraty traduziu em apoio formal.
Para o Ministério das Relações Exteriores, ela reúne “capacidade de facilitar o diálogo” e experiência com “processos políticos complexos”, além de “compromisso com os valores fundamentais das Nações Unidas” — termos do comunicado oficial divulgado em fevereiro. O perfil do ministério nas redes sociais passou a replicar publicações da própria Bachelet sobre sua visão para a organização, movimento que sinaliza o grau de engajamento do governo com a candidatura.
A estratégia do Brasil na ONU
O apoio a Bachelet faz parte de uma posição mais ampla: desde 2025, o Brasil defende que, por consenso e rotatividade histórica, um cidadão latino-americano assuma a chefia da ONU. Brasília tentou articular esse apoio junto à Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), sem ainda consolidar um bloco unificado em torno da candidatura.
A própria ONU reconhece, em sua página oficial, que “a pressão está aumentando” para que uma mulher assuma o cargo — mas ressalva que “não há garantias”. Dos nove secretários-gerais desde a fundação da entidade, em 1945, todos foram homens.
As sabatinas ocorrem em meio a críticas reiteradas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à estrutura atual da ONU. Em discursos no Brasil e no exterior, o petista tem afirmado que a entidade perdeu a força que tinha após a Segunda Guerra Mundial e que os membros permanentes do Conselho de Segurança se tornaram “senhores da guerra” — em referência ao envolvimento de países como Estados Unidos e Rússia em conflitos armados.
A posição brasileira na corrida pela secretaria-geral não surge do nada: três dias antes das sabatinas, Lula havia feito exatamente esse discurso em Barcelona, sinalizando que o apoio a Bachelet integra uma ofensiva diplomática calculada do Brasil pela reforma da ONU.
O cenário herdado por quem assumir o cargo é de paralisia institucional crescente. Guterres encerra o mandato após declarar em março que a guerra no Oriente Médio havia “saído do controle” — diagnóstico que ilustra na prática os limites de um Conselho de Segurança travado pelo poder de veto das grandes potências, exatamente o ponto que Lula tem repetido em seus discursos.
Quem assumir o posto herdará também o desafio de reposicionar a organização diante de um mundo em que sua autoridade é questionada tanto por aliados quanto por adversários das potências ocidentais.