A Shell revisou para baixo sua previsão de produção integrada de gás no primeiro trimestre de 2026 e alertou para um impacto significativo na liquidez de curto prazo, num cenário global turbulento provocado pela guerra no Irã.
O petróleo Brent chegou perto de US$ 120 por barril depois que ataques israelenses e norte-americanos contra o Irã, iniciados no final de fevereiro, levaram Teerã a fechar o Estreito de Ormuz e a atacar vizinhos do Golfo.
A alta extrema das commodities gerou oscilações bilionárias nos estoques da empresa, arrastando o capital de giro para entre menos US$ 10 bilhões e menos US$ 15 bilhões no trimestre.
Analistas elevam estimativas apesar do choque de liquidez
A volatilidade dos preços obrigou a Shell a absorver grandes oscilações no valor dos estoques ao longo do trimestre. Na semana de 20 de março, o Brent chegou a bater US$ 119 antes de recuar, ilustrando a instabilidade extrema que a empresa aponta como causa direta das oscilações em seu capital de giro. A Shell afirma esperar que esses movimentos se revertam se os preços do petróleo e do gás diminuírem.
Os analistas do RBC, mesmo diante do choque, elevaram sua estimativa de lucro líquido para o primeiro trimestre da Shell em 7%, para US$ 6,8 bilhões, e projetam salto de 31% no fluxo de caixa operacional — excluindo capital de giro — para US$ 17,1 bilhões. Para o banco, a escala da oscilação evidenciou o quanto as condições atuais se tornaram incomuns, mas o balanço patrimonial da Shell deve absorver o impacto.
O UBS foi ainda mais otimista: elevou a estimativa de lucro líquido em 18%, para US$ 6,9 bilhões, e projeta alta de 30% no fluxo de caixa operacional para US$ 16,3 bilhões.
Produção de gás recua para mínima da faixa revisada
A Shell reduziu sua previsão de produção integrada de gás para entre 880 mil e 920 mil barris de óleo equivalente por dia no primeiro trimestre, ante a faixa anterior de 920 mil a 980 mil. No quarto trimestre de 2025, a produção havia alcançado 948 mil barris equivalentes por dia.
O bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz, pelo qual passa um quinto do petróleo mundial, havia retirado mais de 12 milhões de barris equivalentes por dia do mercado — a mesma instabilidade que a Shell aponta como causa das grandes oscilações em seus estoques no período.
No lado positivo, a Shell projeta que os resultados comerciais de seu negócio de produtos químicos e produtos — que inclui a comercialização de petróleo — serão significativamente mais altos do que no trimestre anterior, compensando em parte as perdas na produção de gás. Os ganhos ajustados na divisão de marketing, que engloba postos de combustível, também devem subir.
No segmento de gás natural liquefeito (GNL), a perspectiva ficou dentro das projeções anteriores: restrições operacionais na Austrália e interrupções no Catar foram compensadas por um aumento na produção do GNL Canadá.
O barril do Brent já havia voltado a US$ 115 no fim de março, em meio à escalada do conflito sem previsão de encerramento — cenário que agravou a volatilidade de preços que afetou o capital de giro da Shell no trimestre e mantém o setor energético global em estado de alerta.
Os resultados completos do primeiro trimestre de 2026 devem ser divulgados em 7 de maio.