O número de complicações em procedimentos estéticos realizados por não médicos quase dobrou em São Paulo em dois anos. O levantamento é do Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp), que registrou alta de 90,3% nas ocorrências.
Entre médicos, as sindicâncias cresceram 41,4% no mesmo período. Para especialistas, o cenário reflete uma crise regulatória que expõe pacientes a necrose, deformidades permanentes e risco de morte.
Dimensão nacional do problema
Os dados do Cremesp não estão isolados. O Conselho Federal de Medicina registrou 9.566 casos de exercício ilegal da medicina entre 2012 e 2023 — cerca de 61% ligados a procedimentos estéticos. A Anvisa aponta que clínicas de estética concentram 52% das denúncias em serviços de saúde no país.
Um estudo nacional coordenado pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, com mais de mil médicos, constatou que cada complicação exige acompanhamento de até três especialistas e de sete a oito consultas anuais. Muitos pacientes precisam de múltiplas cirurgias ao longo do tempo. O setor movimenta cerca de R$ 40 bilhões por ano e segue em expansão, impulsionado pela alta demanda e pela popularização nas redes sociais.
Substâncias proibidas e técnicas sem controle
Os casos mais graves envolvem substâncias proibidas como o polimetilmetacrilato (PMMA) e o silicone líquido. Segundo o cirurgião plástico Luiz Haroldo Pereira, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), esses materiais causam deformidades irreversíveis e podem levar à morte.
Lipoaspiração, toxina botulínica e preenchimentos faciais também figuram entre as ocorrências quando realizados sem técnica adequada. As queixas mais frequentes incluem necrose, infecção, cicatrizes, deformidades e comprometimento da vascularização. As 44 ações judiciais registradas pelo Cremesp concentram-se principalmente em preenchimentos e aplicação de substâncias para modelagem corporal.
Redes sociais e vácuo regulatório alimentam a crise
O fenômeno tem alcance global e é amplificado pelas plataformas digitais. Resultados positivos circulam amplamente, enquanto complicações raramente aparecem nas timelines — o que distorce a percepção de risco, sobretudo entre jovens expostos a publicidade enganosa. Especialistas apontam essa dinâmica como vetor direto do avanço das complicações.
“O procedimento estético deveria seguir a mesma lógica de segurança de outras áreas: ninguém aceitaria entrar em um avião com um piloto não habilitado”, afirma Pereira.
A origem do problema regulatório remonta a 2013, quando pontos centrais da legislação sobre o ato médico foram vetados. O vácuo abriu espaço para que outros conselhos profissionais autorizassem seus membros a executar procedimentos antes exclusivos de médicos — e, com o tempo, passaram a realizar intervenções cada vez mais invasivas, muitas vezes sem estrutura adequada.
O estudo da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais reforça a necessidade de regulação mais rigorosa, melhor comunicação com a população e conscientização sobre os riscos reais. A recomendação unânime de especialistas é buscar médicos qualificados e evitar procedimentos realizados por profissionais sem habilitação.