Política

Família Bolsonaro pressiona Trump a classificar PCC e CV como terroristas

Departamento de Estado discute designação há semanas após contatos dos filhos do ex-presidente com integrantes do governo americano
Trump e Bolsonaro em confronto diplomático sobre PCC e CV classificados como terroristas

Os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro pressionaram integrantes do governo Donald Trump para que os Estados Unidos classifiquem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, revelou o The New York Times nesta sexta-feira (27).

Segundo fontes do governo americano ouvidas pelo jornal, o Departamento de Estado discute a medida há semanas. O Brasil já se opôs formalmente à proposta em encontro entre o chanceler Mauro Vieira e o secretário de Estado Marco Rubio.

O que diz Washington

A Casa Branca argumenta que a designação de grupos terroristas é reservada a organizações que representam risco direto à segurança interna norte-americana — critério que, a rigor, não se aplica às facções brasileiras, cujo raio de ação está concentrado no Brasil.

A maioria das designações vigentes recai sobre cartéis mexicanos, vizinhos geográficos dos EUA. Grupos incluídos na lista do Departamento de Estado ficam sujeitos a bloqueio de ativos financeiros, restrições de viagem e sanções econômicas.

A pressão e a resposta diplomática

A pressão da família Bolsonaro ocorre num momento em que o Itamaraty já trabalhava nos bastidores para conter o avanço da proposta — tema levado diretamente por Mauro Vieira a Marco Rubio numa cúpula com líderes latino-americanos aliados ao governo Trump, realizada no início do mês.

Na ocasião, Rubio comunicou ao Brasil a intenção de incluir o PCC e o CV na lista terrorista e pediu que Brasília fizesse o mesmo. O governo brasileiro rejeitou ambas as demandas.

Oficialmente, Washington não se pronunciou sobre a possibilidade. O New York Times não identificou as fontes por nome.

Trump e a estratégia na América Latina

Desde o início do mandato, Donald Trump vem classificando grupos criminosos de diferentes países da região como organizações terroristas. No caso da Venezuela, a designação foi usada como justificativa para uma operação militar próxima às águas do país, que culminou na captura de Nicolás Maduro.

A iniciativa se insere numa estratégia mais ampla de Washington: desde o início do mandato Trump, ao menos três países latino-americanos já sofreram ações militares ou de inteligência contra grupos criminosos, abrindo precedente para uma postura cada vez mais intervencionista na região.

O que muda se a designação for aprovada

Se a classificação se concretizar, as consequências seriam imediatas: bloqueio de ativos financeiros vinculados às facções, restrições de imigração e amparo legal para operações de inteligência e ações militares dos EUA contra os grupos — mecanismo já acionado contra alvos na Venezuela.

O relacionamento bilateral passou por turbulências recentes: Trump impôs tarifas ao Brasil e sancionou o ministro do STF Alexandre de Moraes em retaliação ao julgamento de Bolsonaro. As medidas foram retiradas após negociações diretas entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.