Saúde

Vírus Sabiá desafia ciência brasileira três décadas após primeiro caso fatal

Patógeno de classe 4 foi identificado em Cotia e permanece sem tratamento ou vacina, impulsionando avanços em pesquisa de alta segurança

O vírus Sabiá, único patógeno brasileiro de risco biológico máximo, foi identificado em Cotia (SP) em 1990. Três décadas depois, ele ainda intriga cientistas por sua alta letalidade e ausência de cura ou vacina.

Desde o primeiro caso, apenas quatro infecções foram registradas, com dois óbitos. Pesquisas avançam para entender o vírus e desenvolver métodos de contenção.

Origem e primeiros casos

O vírus Sabiá recebeu esse nome por causa do bairro Sabiá, em Cotia (SP), onde ocorreu o primeiro caso em 1990. Ele pertence ao gênero Mammarenavirus, grupo que inclui outros arenavírus como Junin (Argentina), Machupo e Chapare (Bolívia) e Guanarito (Venezuela), todos causadores de febre hemorrágica viral em humanos.

O primeiro paciente foi uma engenheira agrônoma de 25 anos, que morreu após contrair o vírus. Outros três episódios foram registrados: um técnico de laboratório de 39 anos, infectado ao manipular amostras da primeira vítima e que sobreviveu; um virologista nos Estados Unidos, provavelmente contaminado durante pesquisa, também recuperado; e um operador de máquina de café, de 32 anos, em Espírito Santo do Pinhal (SP), em 1999, que evoluiu para óbito.

Transmissão e sintomas

Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical (SBMT), a transmissão ocorre pela inalação de partículas de urina, fezes ou saliva de roedores silvestres infectados. A espécie transmissora no Brasil ainda não é conhecida, mas os hospedeiros são animais de mata com alta densidade de vegetação.

De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o período de incubação pode variar de uma semana a mais de um mês. Os sintomas incluem febre, mal-estar, dores musculares, manchas vermelhas, dor de garganta, dor de estômago e atrás dos olhos, dor de cabeça, tontura, sensibilidade à luz, constipação e sangramento de mucosas. Casos graves podem evoluir para comprometimento neurológico e hepático.

Risco biológico e avanços científicos

O Sabiá está classificado na categoria 4 de risco biológico (NB4), a mais alta, devido à alta letalidade e à ausência de tratamento eficaz ou vacina. Ele integra o mesmo grupo de risco de vírus como Ebola e Marburg.

Não há terapia específica para a infecção, e o tratamento é sintomático. A busca por soluções levou uma pesquisadora brasileira, Jacqueline Farinha Shimizu, a realizar treinamento NB4 na University of Texas Medical Branch (EUA), onde manipulou o vírus em ambiente seguro.

O Brasil está construindo o projeto Orion, primeiro complexo de laboratórios NB4 da América Latina, no campus do CNPEM, em Campinas (SP). Com 29 mil metros quadrados e investimento de R$ 1,5 bilhão, o laboratório deve ser inaugurado em 2027 e permitirá que o Sabiá e outros patógenos sejam estudados no país, reduzindo a dependência de parcerias internacionais e fortalecendo a pesquisa nacional em biossegurança.