A construção da Avenida Liberdade em Belém, Pará, está alterando a rotina de famílias ribeirinhas e moradores tradicionais. As obras, que cortam uma área de floresta, provocam desmatamento e polêmica. Moradores relatam tristeza, preocupação ambiental e mudanças drásticas no cotidiano desde o início do projeto.
Impactos ambientais e sociais
O traçado da Avenida Liberdade atravessa uma unidade de conservação e áreas ocupadas por cerca de 250 famílias tradicionais. O desmatamento já atinge aproximadamente 72 hectares de floresta, afetando a biodiversidade e o equilíbrio ambiental. Famílias ribeirinhas relatam aumento de barulho, poeira e movimentação de veículos, além da perda de plantações como o açaí, fonte de renda local.
Segundo relatos, o rio da região tem recebido rejeitos e sofre com assoreamento, tornando a água barrenta e prejudicando a pesca. “O peixe sumiu. O camarão, a gente pega bem pouquinho. A água está poluída”, afirma Ivanildo da Silva, pescador. Andreia da Costa, agroextrativista, lamenta: “Meu marido está trabalhando com o que restou, muito pouco para vender”.
Reações e ações judiciais
A obra, anunciada em 2020 e acelerada após Belém ser confirmada como sede da conferência climática mundial, é alvo de ação civil pública. A Defensoria Pública do Estado do Pará questiona a ausência de consulta adequada às comunidades. O governo promete indenizar famílias impactadas, mas reconhece pendências documentais. “Acreditamos que essas mudanças podem ser superadas”, afirma o procurador João Palacius.
A Secretaria de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) afirma que a obra possui licença ambiental concedida após processo rigoroso, com acompanhamento técnico e audiências públicas com participação de comunidades tradicionais. A Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seinfra) informa que as obras estão 65% concluídas e devem terminar até o fim do semestre.
Apesar da promessa de desafogar o trânsito nos acessos à capital, a construção da avenida gera polêmica e preocupação entre ambientalistas e moradores. “Nunca foi intuito nosso parar essa questão do progresso, como eles falam. Mas que seja feito de uma forma digna para todo”, diz a estudante Emanuela Cardoso. A ação judicial pede reparação por danos socioambientais, enquanto as famílias aguardam compensações e buscam alternativas para manter suas fontes de renda.