A Vila da Barca, uma das maiores comunidades de palafitas da América Latina, espera receber abastecimento de água potável até outubro, antes da COP 30 em Belém. Após décadas sem saneamento, obras prometem melhorias, mas moradores ainda enfrentam falta de coleta de lixo e insegurança quanto à qualidade da água.
Enquanto isso, a construção de uma estação elevatória para tratar esgoto de áreas nobres gera polêmica na comunidade, que teme impactos negativos e não vê benefícios diretos.
Desafios históricos e cotidiano dos moradores
Localizada na margem da Baía do Guajará, no bairro Telégrafo, periferia de Belém, a Vila da Barca abriga cerca de 5 mil pessoas em casas de palafitas e alvenaria. A ausência de saneamento básico acompanha a comunidade desde sua formação, no início do século XX. Além da falta de água potável, os moradores convivem com o acúmulo de lixo, tanto trazido pelo rio quanto descartado localmente, já que a coleta não atende toda a área.
O trabalhador autônomo Márcio Ferreira relata: “Há 25 anos que moro aqui e nunca mudou nada. Para trabalhar hoje, por exemplo, tive que comprar barril de água. A gente quer morar em local digno, há tanto tempo neste sofrimento”. Vilma Sousa, da Associação de Moradores, acrescenta: “Para conseguir água, tem que ter bomba. Quem não tem, é aquele sofrimento, tem que ficar pedindo para o vizinho”.
Muitos moradores recorrem à compra de bombonas de água, pois não confiam na qualidade da água que chega pelos canos antigos e danificados, frequentemente submersos durante a cheia do rio. A preocupação cresce devido à inexistência de coleta de esgoto e à presença de ligações irregulares, que podem contaminar tanto o rio quanto os encanamentos residenciais.
Obras e polêmica sobre estação elevatória
Paralelamente à promessa de abastecimento de água, está em andamento a construção de uma estação elevatória de esgoto, parte de um projeto maior para a COP 30. A estação, situada na Vila da Barca, integra o sistema de esgoto da sub-bacia do Una, com investimento de R$ 25 milhões para despoluir canais da cidade, incluindo o da avenida Visconde de Souza Franco (Doca).
O esgoto da Doca, entre os bairros Reduto e Umarizal, será transportado por cerca de 4 km até a estação de tratamento do Una (ETE-Una), passando pela estação elevatória da Vila da Barca, que bombeia o fluxo do ponto mais baixo para o mais alto. Apesar da importância para a cidade, moradores temem mau cheiro, vazamentos e a ausência de benefícios diretos. O governo do Pará afirma que não há “risco sanitário ou ambiental à comunidade local”.
Vulnerabilidade social e ambiental
As ações para a COP 30 visam transformar Belém em referência mundial de sustentabilidade, mas a precariedade em áreas periféricas, como a Vila da Barca, evidencia contradições e maior exposição aos efeitos da crise climática. O aumento do nível das águas e chuvas intensas elevam os riscos de alagamentos, desabamentos e proliferação de doenças, agravados pela falta de infraestrutura adequada.
O historiador e morador Kelvin Gomes avalia: “A realidade que a gente vive hoje é reflexo da forma como a comunidade se constitui, mas é, principalmente, reflexo da forma como o poder público pensa as periferias. […] Somos uma comunidade que se intensifica por meio dos laços comunitários”.
Além do saneamento, a comunidade reivindica há anos creches, escolas e equipamentos públicos como a Usina da Paz, mas, segundo a associação de moradores, todos os pedidos foram negados. A expectativa é que as obras em andamento tragam melhorias, mas a população segue atenta e cobrando por mais dignidade e inclusão.